Documento reconhece o papel de fármacos como a tirzepatida, mas destaca que eles não substituem mudanças de estilo de vida nem o acompanhamento clínico de longo prazo
A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma primeira diretriz global sobre o uso de medicamentos agonistas do receptor GLP-1 e agonistas duplos GIP/GLP-1 no tratamento da obesidade, trazendo um recado claro para sistemas de saúde, profissionais e pacientes: a obesidade deve ser tratada como uma doença crônica complexa, que exige cuidado contínuo, multidisciplinar e individualizado, e não como um problema resolvido apenas com medicamentos.
O documento, construído a partir da análise de evidências científicas recentes, surge em um contexto de crescimento acelerado do uso desses fármacos em todo o mundo. Entre eles está a tirzepatida, conhecida comercialmente como Mounjaro, amplamente utilizada no Brasil, inclusive fora das indicações médicas aprovadas, o que tem gerado preocupação regulatória e clínica.
Obesidade como doença crônica
A primeira grande recomendação da OMS é conceitual, mas com implicações práticas profundas: a obesidade é definida como uma doença crônica complexa que requer cuidados ao longo da vida. Segundo a diretriz, o manejo deve começar com avaliação clínica adequada e diagnóstico precoce, seguido do acesso a programas estruturados de cuidado crônico.
Esses programas devem combinar intervenções comportamentais e de estilo de vida contínuas e, quando indicado, terapias farmacológicas, cirúrgicas ou outras abordagens terapêuticas. Além disso, o cuidado não pode se limitar à perda de peso: deve incluir a prevenção, o monitoramento e o tratamento das complicações e comorbidades associadas, como diabetes, doenças cardiovasculares e problemas musculoesqueléticos.
Ao enfatizar esse ponto, a OMS se posiciona contra abordagens fragmentadas ou focadas exclusivamente no uso de medicamentos, reforçando que não há solução única ou rápida para uma condição multifatorial como a obesidade.
Mudanças de comportamento
Outra recomendação central da diretriz trata diretamente do uso dos agonistas de GLP-1 e dos agonistas duplos GIP/GLP-1. A OMS afirma que todas as pessoas com obesidade devem receber aconselhamento contextualizado sobre mudanças comportamentais e de estilo de vida, incluindo alimentação saudável e atividade física como passo inicial do cuidado.
Para aqueles que recebem prescrição desses medicamentos, esse aconselhamento não é opcional. A diretriz recomenda que as mudanças comportamentais sejam oferecidas como primeiro passo para uma terapia comportamental intensiva, com o objetivo de potencializar, sustentar e ampliar os benefícios do tratamento farmacológico. Em adultos com obesidade, os agonistas de GLP-1 ou GIP/GLP-1 podem ser utilizados como tratamento de longo prazo, desde que integrados a um algoritmo clínico multidisciplinar, que inclua acompanhamento contínuo e intervenções não farmacológicas.
Na prática, o documento deixa claro que o medicamento não deve ser visto como substituto da mudança de hábitos, mas como parte de uma estratégia mais ampla de cuidado.
Contexto brasileiro e atenção regulatória
No Brasil, a diretriz está alinhada com decisões recentes. Em meados de 2025, o Ministério da Saúde passou a indicar a tirzepartida, em condições específicas, como parte do manejo crônico do peso, sempre associada a dieta de baixa caloria e aumento da atividade física, tanto para perda quanto para manutenção do peso.
Ao mesmo tempo, a Anvisa mantém uma posição rigorosa quanto à segurança sanitária: é proibido o ingresso no país de canetas emagrecedoras sem registro. Medicamentos não registrados só podem ser importados de forma excepcional, para uso exclusivamente pessoal, mediante prescrição médica e cumprimento de requisitos adicionais. O uso indiscriminado, sem acompanhamento clínico, representa riscos importantes à saúde.
A nova diretriz da OMS reforça esse cuidado ao lembrar que a efetividade e a segurança desses medicamentos dependem de prescrição adequada, seguimento clínico e integração com estratégias de mudança de comportamento.
Referências:
(1) WHO issues global guideline on the use of GLP-1 medicines in treating obesity
(2) Mounjaro® (tirzepatida): nova indicação
(3) Anvisa informa sobre proibição de ingresso de canetas emagrecedoras no Brasil
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