Estudo no Reino Unido mostra como o uso indiscriminado de abreviaturas clínicas contribui para incidentes evitáveis e reforça a necessidade de padronização e educação em segurança do paciente
A comunicação inadequada continua sendo um dos fatores mais relevantes associados a incidentes relacionados à segurança do paciente. Um estudo conduzido no Reino Unido e publicado recentemente analisou, de forma sistemática, o uso de abreviações clínicas em registros assistenciais e demonstrou como falhas nesse processo podem gerar riscos evitáveis especialmente em ambientes complexos, com equipes multiprofissionais e alta rotatividade de profissionais.
A pesquisa avaliou registros de enfermaria, notas cirúrgicas, prescrições médicas e comunicações multidisciplinares, identificando 82 abreviações comumente utilizadas no cotidiano hospitalar. Embora essas siglas sejam amplamente difundidas no contexto internacional, os autores destacam que seu uso inconsistente, ambíguo ou não padronizado contribui para erros de interpretação, atrasos no cuidado e decisões clínicas equivocadas.
O estudo adotou uma abordagem prática: após mapear as abreviações mais frequentes e os riscos associados, os pesquisadores implementaram intervenções institucionais voltadas à melhoria da comunicação escrita. Entre as principais ações estiveram a criação de uma lista padronizada de abreviações permitidas, a exclusão de siglas consideradas ambíguas, a capacitação das equipes e a revisão sistemática dos registros clínicos. Como resultado, observou-se redução significativa de abreviações não padronizadas, maior clareza nos prontuários e melhoria na segurança do processo assistencial.
Realidade brasileira
Embora o estudo tenha sido realizado no Reino Unido, seus achados dialogam diretamente com a realidade brasileira. No país, apesar de não existir uma lista oficial nacional de abreviaturas padronizadas validada por órgãos reguladores, é comum o uso de abreviações como S/N (se necessário), SS ou Susp (suspensão), SSD (sem sinais de dor) e Tto (tratamento), entre muitas outras. Além disso, diversas instituições criam seus próprios manuais internos de siglas e abreviações.
Esse cenário se torna especialmente crítico quando se considera que muitos profissionais de saúde atuam simultaneamente em mais de uma instituição. A coexistência de manuais distintos, com significados diferentes para as mesmas abreviações, pode gerar confusão, aumentar a carga cognitiva das equipes e elevar o risco de incidentes, exatamente o oposto do que se busca com iniciativas de padronização.
Na discussão, os autores do estudo britânico reforçam que a comunicação segura não depende apenas de boa vontade individual, mas de decisões organizacionais claras, alinhadas à cultura de segurança do paciente. Protocolos, treinamentos isolados ou sistemas eletrônicos não são suficientes se não houver consenso institucional, liderança engajada e ambientes que estimulem a clareza, o questionamento e o aprendizado com falhas.
A conclusão do estudo é direta: investir em comunicação clara, padronizada e compreensível é uma estratégia de alto impacto para reduzir eventos adversos. Para gestores, o recado é que segurança do paciente começa nos detalhes, inclusive nas palavras escolhidas para registrar o cuidado. Para outros profissionais, a evidência reforça a importância de revisar hábitos consolidados e reconhecer que abreviar nem sempre significa ganhar tempo; muitas vezes, significa aumentar o risco.
Referências:
(1) Bridging Communication Gaps to Enhance Patient Safety: A Quality Improvement (QI) Project on the Role of Abbreviations, Their Risks, and Pathways to Change
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