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Estudo sugere que escassez de profissionais de enfermagem aumenta mortalidade e eventos adversos em hospitais

Estudo sugere que escassez de profissionais de enfermagem aumenta mortalidade e eventos adversos em hospitais
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Estudo inglês demonstra que a falta de enfermeiros eleva risco de óbito, readmissão e tempo de internação e que investir em equipes completas é custo-efetivo 

A escassez de profissionais de enfermagem em ambientes hospitalares não é apenas um desafio operacional ou de gestão de pessoas. Trata-se de um fator diretamente associado ao aumento da mortalidade, das readmissões hospitalares e do tempo de internação, com impacto mensurável na segurança do paciente. Essa é a principal conclusão do estudo Cost-effectiveness of eliminating nursing shortages in hospitals: a retrospective longitudinal study and economic evaluation, conduzido na Inglaterra pela análise de mais de 620 mil admissões hospitalares ao longo de cinco anos.

Embora o estudo tenha sido realizado no contexto do National Health Service (NHS), o fenômeno analisado é global. A escassez de profissionais de saúde, especialmente da enfermagem, é relatada em sistemas de saúde de diferentes países. No Brasil, por exemplo, levantamento do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) aponta um déficit de pelo menos 17 mil profissionais, entre enfermeiros e técnicos de enfermagem. O número tende a se agravar diante do envelhecimento populacional, do aumento da complexidade assistencial e das condições de trabalho adversas.

Falta de enfermeiros e risco clínico mensurável

O estudo analisou dados de 185 enfermarias de internação de adultos em quatro hospitais públicos ingleses e a exposição do paciente à falta de pessoal de enfermagem foi mensurada nos primeiros cinco dias de internação, período crítico em que a maioria dos pacientes se encontra em maior gravidade clínica.

Os resultados são consistentes e clinicamente relevantes. Antes de avaliá-los, é preciso pensar em uma certa equivalência (mesmo que não exata) entre os modelos de enfermagem inglês e brasileiro. Na Inglaterra, eles chamam de Registered Nurses (RNs) aqueles enfermeiros com formação universitária e registro no Nursing and Midwifery Council (NMC). No Brasil, poderíamos considerar esse caso como o de enfermeiros formados com  registro no Conselho Regional de Enfermagem (COREN).

Além dos RNs, eles consideram os Nursing Support Staff (NS), profissionais de enfermagem com formação técnica e sem registro no conselho. Por aqui poderíamos utilizar a equivalência de técnicos de enfermagem.

Por fim, dando sequência à análise do estudo, nota-se que cada dia adicional de exposição à falta dos enfermeiros esteve associado a um aumento de 8% no risco de óbito, além de maior probabilidade de readmissão e prolongamento significativo do tempo de internação. A exposição à escassez de técnicos de enfermagem também se associou a aumento de mortalidade e maior permanência hospitalar, ainda que com magnitude menor.

Em termos práticos, pacientes expostos à falta de pessoal nos primeiros dias de internação apresentaram taxas mais elevadas de eventos adversos e permaneceram mais tempo hospitalizados, o que reforça a relação direta entre dimensionamento inadequado da equipe e desfechos clínicos desfavoráveis.

Segurança do paciente não é variável individual

Os achados reforçam um ponto central da ciência da segurança do paciente: eventos adversos não decorrem, majoritariamente, de falhas individuais, mas de condições sistêmicas, entre elas o subdimensionamento crônico das equipes. Ambientes com escassez de profissionais estão mais expostos a interrupções, sobrecarga cognitiva, atrasos na detecção de deterioração clínica, falhas de comunicação e menor aderência a protocolos assistenciais.

Nesse contexto, o estudo dialoga diretamente com conceitos de fatores humanos e sistemas complexos: profissionais competentes operando em sistemas inadequadamente dimensionados terão, inevitavelmente, desempenho comprometido. A segurança deixa de ser uma questão de competência técnica isolada e passa a ser um atributo emergente da organização do trabalho.

Lucas Zambon, diretor Científico do IBSP, argumenta que na força de trabalho, os profissionais de enfermagem são a grande base de sustentação da assistência hospitalar.  “Não se atentar para a falta de força de trabalho, ou ainda, mau dimensionamento causando sobrecarga de trabalho, é o mesmo que colocar pacientes deliberadamente em risco. Isso remete à base da tríade de Donabedian, na dimensão de estrutura. Sem estrutura adequada, é impossível desenhar bons processos, e a consequência direta é prejudicar os resultados em termos de qualidade do cuidado”, diz.


Referências:
(1) Cost-effectiveness of eliminating hospital understaffing by nursing staff: a retrospective longitudinal study and economic evaluation
(2) Levantamento revela déficit de 17 mil enfermeiros e técnicos de enfermagem

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