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Especialistas europeus questionam se segurança do paciente perdeu prioridade nos sistemas de saúde

Especialistas europeus questionam se segurança do paciente perdeu prioridade nos sistemas de saúde
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Artigo publicado por colaboradores do ISMP Espanha alerta que a segurança do paciente deve continuar no centro das estratégias e aponta situações onde ela deixa de ser prioritária

A segurança do paciente foi, durante as últimas duas décadas, um dos pilares das políticas de qualidade em saúde em todo o mundo. Entretanto, um artigo recente publicado por María José Otero e José Luis Poveda, especialistas ligados ao ISMP Espanha (Institute for Safe Medication Practices) e a hospitais universitários espanhóis, levanta uma questão importante: será que a segurança do paciente deixou de ocupar o centro das agendas estratégicas dos sistemas de saúde?

No texto, os autores retomam uma reflexão publicada por Donald Berwick no New England Journal of Medicine, em 2023. Nesse editorial, Berwick alertava que a chamada “constância de propósito” em torno da segurança do paciente parecia estar se perdendo ao longo do tempo argumentando que melhorias em sistemas complexos só ocorrem quando há um compromisso visível, contínuo e coerente das lideranças.

Segundo os especialistas espanhóis, apesar de mais de duas décadas de movimento internacional em prol da segurança do paciente, muitas organizações de saúde parecem ter deslocado esse tema para segundo plano, pressionadas por outras prioridades assistenciais e econômicas.

No artigo, Otero e Poveda argumentam que os sistemas sanitários vivem atualmente um momento de grande complexidade. Entre os fatores que pressionam as organizações de saúde, eles destacam:

  • problemas crescentes de acessibilidade e sustentabilidade financeira
  • envelhecimento populacional e aumento da demanda assistencial
  • escassez e evasão de profissionais de saúde
  • transformação digital acelerada
  • exigências cada vez maiores de equidade no acesso aos serviços


Diante desse cenário, os autores sugerem que a segurança do paciente pode ter passado a ser tratada como um valor já consolidado, algo que todos reconhecem como importante, mas não necessariamente como uma prioridade explícita nas decisões estratégicas das organizações. Essa visão é validada por Karina Pires, diretora de Novos Negócios do IBSP, que diz que “precisamos ter a ousadia de identificar o que hoje está invisível: a segurança real acontece no detalhe que o sistema ainda não aprendeu a medir”. Com isso, a executiva reforça a importância de sempre manter o tema como prioritário, em estudo contínuo e avaliação diária.

Para eles, essa mudança de foco merece atenção, especialmente considerando que os dados epidemiológicos sobre eventos adversos evitáveis continuam preocupantes. E a visão é validada por Karina Pires, diretora de Novos Negócios do IBSP, que diz que “precisamos ter a ousadia de identificar o que hoje está invisível: a segurança real acontece no detalhe que o sistema ainda não aprendeu a medir”. Com isso, a executiva reforça a importância de sempre manter o tema como prioritário, em estudo contínuo e avaliação diária.

Segurança – O dano evitável continua presente

O artigo lembra que o movimento moderno de segurança do paciente surgiu a partir de estudos epidemiológicos realizados a partir dos anos 1980, como o Harvard Medical Practice Study, que analisou mais de 30 mil prontuários hospitalares no estado de Nova York.

Naquele momento, os resultados mostraram algo inesperado: apenas uma pequena parcela dos eventos adversos estava associada à negligência médica. A maioria estava relacionada a falhas nos processos assistenciais, muitas delas potencialmente evitáveis.

Essa constatação abriu caminho para uma mudança de paradigma, impulsionada por pesquisadores como Lucian Leape, que passaram a aplicar na saúde conceitos das ciências da segurança, já consolidados em setores de alto risco como a aviação.

Esse movimento culminou na publicação do histórico relatório do Institute of Medicine, “To Err is Human”, que consolidou a visão sistêmica do erro na assistência à saúde.

No entanto, segundo os autores espanhóis, os dados mais recentes sugerem que os avanços podem ter sido menores do que o esperado. Um estudo contemporâneo que replicou a metodologia do Harvard Medical Practice Study em hospitais de Massachusetts identificou eventos adversos em 23,6% das internações, sendo 22,7% considerados preveníveis.

Segurança da medicação 

Entre os tipos de eventos adversos, o artigo destaca que quase quatro em cada dez eventos adversos identificados estavam associados ao uso de medicamentos, alerta que também é factível para a cena de saúde brasileira, como lembra Leiliane Marcatto, consultora do IBSP. “A cadeia medicamentosa envolve processos altamente complexos e, por isso,  exige vigilância contínua e a implementação de barreiras de segurança capazes de tornar esse processo cada vez mais seguro”, diz.

Além disso, organizações internacionais reforçam esse alerta. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente um em cada 20 pacientes atendidos em serviços de saúde sofre algum tipo de dano prevenível relacionado ao uso de medicamentos.

Já a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) calcula que:

  • até 1 em cada 10 internações hospitalares esteja associada a problemas de segurança no uso de medicamentos
  • cerca de 1 em cada 5 pacientes hospitalizados experimente algum dano relacionado ao tratamento farmacológico
  • os custos decorrentes desses eventos ultrapassem US$ 50 bilhões por ano nos países membros.


Segundo Otero e Poveda, esses dados indicam que a segurança da medicação precisa permanecer como eixo central das estratégias de segurança do paciente, e não apenas como uma diretriz declaratória.

Sistemas complexos, riscos complexos

Os autores também destacam que o risco associado ao uso de medicamentos tende a aumentar à medida que os sistemas de saúde se tornam mais complexos.

Entre os fatores que ampliam essa vulnerabilidade estão:

  • fragmentação das informações clínicas
  • transições entre diferentes níveis de atenção
  • sobrecarga cognitiva dos profissionais
  • polifarmácia em pacientes frágeis
  • dependência crescente de sistemas digitais
  • pressão assistencial constante


Nesse ambiente, pequenas falhas podem atravessar sucessivas barreiras de segurança e resultar em eventos adversos graves quando os sistemas não estão estruturados com princípios de alta confiabilidade.

Diante desse cenário, os especialistas espanhóis retomam a pergunta central levantada no artigo: a segurança do paciente ainda ocupa um lugar de destaque nas agendas estratégicas das organizações de saúde?

Para eles, a segurança não pode ser tratada apenas como um conjunto de boas intenções individuais, mas como uma responsabilidade organizacional que exige liderança explícita, definição clara de responsabilidades, alocação adequada de recursos, metas mensuráveis e monitoramento contínuo.

Sem essa constância de propósito, alertam os autores, a segurança do paciente corre o risco de se tornar apenas uma prioridade formal, presente em documentos estratégicos, mas com pouca capacidade de transformação real.

Realidade brasileira

No Brasil, a discussão também é relevante. Iniciativas como a criação do Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP) e a implantação dos Núcleos de Segurança do Paciente representaram avanços importantes na última década.

O IBSP vêm atuando para fortalecer esse movimento, por meio da capacitação de profissionais de saúde dentro do IBSP Conecta, e da implementação de protocolos assistenciais e do apoio a serviços de saúde que estão estruturando seus Núcleos de Segurança do Paciente através da atuação da consultoria especializada.

Ainda assim, especialistas alertam que o tema precisa permanecer no centro das estratégias institucionais. Em um contexto de crescente pressão sobre os sistemas de saúde, manter a segurança do paciente como prioridade exige liderança, investimento e compromisso contínuo.

A reflexão proposta por Otero e Poveda, portanto, não se limita ao contexto europeu, mas sim reforça um debate global de que a segurança do paciente não pode ser considerada um objetivo já alcançado.

Referências:
(1) ¿Sigue siendo la seguridad del paciente una prioridad estratégica?

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