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Na pandemia, telemedicina pode aumentar uso indiscriminado de antibióticos?

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Desafio global de saúde, o uso criterioso de antibióticos ganhou um novo capítulo durante a COVID-19. Em um cenário de crise, todo o globo apostou em restrições de movimento como forma de intensificar o distanciamento social e, assim, bloquear a disseminação do novo coronavírus. Dessa forma, as teleconsultas foram privilegiadas e cresceram consideravelmente ao longo de 2020.

Segundo artigo do The British Medical Journal (1) publicado em novembro do ano passado, em um primeiro momento, esses atendimentos virtuais não soam problemáticos, visto que normalmente as infecções do trato respiratório são virais e, quando há teste negativo para COVID-19, são passíveis de ser gerenciadas virtualmente.

Porém, considerando que quase metade dos antibióticos ambulatoriais são destinados ao tratamento dessas infecções, esse cenário pode levar à prescrição excessiva desses medicamentos devido à limitação das capacidades de diagnóstico no ambiente on-line.

Comprovando essa teoria, estudo da Academia Americana de Pediatria (2) comparou a qualidade da prescrição de antibióticos para infecções respiratórias agudas em três ambientes: telemedicina, atendimento de urgência e consultório de atenção primária.

Como resultado, a prescrição foi maior na telemedicina do que nas outras metodologias. Em 52% das consultas virtuais o medicamento foi prescrito, enquanto em apenas 42% dos atendimentos da emergência e 31% dos realizados em consultório os pacientes saíram com uma receita de antibiótico.

Virtual x Presencial – É preciso saber avaliar com precisão quando uma consulta presencial se faz necessária. O estudo traz algumas indicações como, por exemplo, considerar atendimento presencial sempre que houver suspeita de infecção bacteriana, assim testes para estreptococos ou radiografias de tórax podem ser solicitadas suportando a decisão médica. É a melhor forma de evitar o uso indiscriminado de antibióticos que podem levar a reações adversas evitáveis e ao aumento da resistência antimicrobiana.

O estudo também traz indicativos de qual a melhor metodologia de consulta para diferentes casos de infecção do trato respiratório. Se for COVID-19, influenza ou outra doença semelhante, a sugestão é que seja feita uma consulta presencial quando houver falta de ar ou suspeita de hipóxia, preocupação com desidratação do paciente e outros sinais de alerta como, por exemplo, em adultos, dificuldade para respirar, dor torácica aguda ou dor abdominal, confusão ou declínio funcional.

Há outros exemplos práticos de fluxo entre o virtual e o presencial. Em caso de otite média aguda, o paciente deve se deslocar para consulta presencial se os sintomas permanecerem após 48h mesmo com medicamento adequado para dor e se desenvolver febre acima de 39°. Quando há um quadro de faringite, a consulta presencial se faz necessária também quando os sintomas persistem ou pioram após 48h ou se houver alta possibilidade de faringite bacteriana. Em caso de suspeita de pneumonia, a consulta virtual não deve ser considerada e o paciente deve ser examinado presencialmente. O estudo também traz detalhes para outras situações clínicas.

Comunicação transparente – Para evitar o uso indiscriminado de antibióticos, os médicos precisam investir em estratégias para uma melhor comunicação com o paciente. O primeiro passo é explicar, em detalhes, qual o diagnóstico. Além disso, o profissional deve entender quais são as preocupações daquele paciente, quais os sintomas que mais o incomodam e reforçar que antibióticos podem não ser úteis para aquele caso específico, mesmo que essa tenha sido uma diretriz já utilizada anteriormente em uma situação similar.

Outro ponto fundamental é alinhar um bom plano de gestão de sintomas para tornar o período de tratamento mais confortável e dar suporte para que ele saiba como agir caso haja uma mudança no quadro.

Prescrição tardia – O artigo do The British Medical Journal também menciona que o Reino Unido vem experimentando o uso da prescrição tardia de medicamentos. Isso significa que o médico faz uma receita que só deve ser preenchida e o medicamento adquirido caso os sintomas não melhorem. O estudo mostra que menos de 1/3 dos pacientes acabaram por utilizar aquela medicação. Porém, um alerta precisa ser feito nesse caso: prescrições tardias não devem ser utilizadas como rotina principalmente durante a pandemia de COVID-19, visto que no caso da infecção pelo novo coronavírus os sintomas podem demorar até duas semanas para desaparecerem.

Referências:

(1) Using antibiotics wisely for respiratory tract infection in the era of covid-19

(2) Antibiotic Prescribing During Pediatric Direct-to-Consumer Telemedicine Visits

 

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