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Portugal e Brasil: enfermeira diz quais as boas práticas e os desafios de segurança do paciente nos dois países

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“O entusiasmo em tratar das questões relacionadas à segurança do paciente está presente nos profissionais de saúde de ambos os países”, diz Susana Ramos, enfermeira chefe do Centro Hospitalar de Lisboa Central e coordenadora do Gabinete de Segurança do Doente

Portugal e Brasil têm muito em comum além do idioma. Quando se fala em saúde, pública ou privada, o engajamento dos profissionais nas questões relacionadas à qualidade e segurança do paciente salta aos olhos. “Portugal está engajado na cultura de segurança antes mesmo disso se tornar uma diretriz oficial”, conta Susana Ramos, enfermeira chefe do Centro Hospitalar de Lisboa Central e coordenadora do Gabinete de Segurança do Doente. “Como estamos engajados no tema há muitos anos, atualmente, há mais uniformidade nas instituições de saúde no que se refere à segurança, diferente do Brasil”, pontua.

Em entrevista exclusiva ao Portal IBSP, Susana Ramos, sob a perspectiva da enfermagem, traça um paralelo entre os dois países ao abordar temas como a formação do enfermeiro, a comunicação interdisciplinar, as boas práticas e os desafios de segurança do paciente, além de como afirmar que a tecnologia pode auxiliar tanto a evitar eventos adversos quanto na melhoria da gestão das práticas de saúde.

Susana Ramos

IBSP – Comparando Portugal e Brasil, quais as boas práticas e os pontos falhos?
Susana Ramos – Os dois países têm práticas muito semelhantes, pois estão preocupados com a segurança do paciente e abertos a mudanças. O Brasil, sendo um País tão grande, tem boas práticas de segurança já implantadas em algumas instituições, mas, em outras, o assunto ainda está sendo construído.

Já em Portugal, como um país menor e com menos instituições, o controle da segurança do paciente é mais abrangente na atualidade. Alguns anos atrás, havia muita diferença entre as instituições, mas hoje podemos observar mais uniformidade, ou seja, os hospitais estão caminhado juntos nessa matéria de segurança do doente. Na minha percepção, no Brasil o tema ainda é disperso e as instituições precisam tornar a prática mais intrínseca às atividades.

IBSP – As metas internacionais fazem parte do dia a dia das instituições de saúde em Portugal?
Susana Ramos – As metas em Portugal estão incorporadas ao Plano Nacional de Segurança do Paciente 2015/2020 e a Direção Geral da Saúde convoca trimestralmente os hospitais para apresentarem seus planos de ação no cumprimento das metas internacionais. Precisamos demonstrar com evidências o que estamos fazendo. Notei uma grande evolução nos últimos dez anos, contudo, ainda encontramos a grande barreira de mudança de comportamento. Há muita coisa a se fazer nesse sentido.

IBSP – Nos dois países há diferenças de graduação do profissional da enfermagem. Como você enxerga essa distinção?
Susana Ramos – No Brasil, há técnicos e auxiliares de enfermagem, enquanto em Portugal há apenas a licenciatura em enfermagem, que é uma formação de nível superior com quatro anos de duração. Essa formação é obrigatória ao profissional para exercício da profissão.

Quando percebi que na enfermagem brasileira havia funções diferentes, com até três formações, comecei q refletir que isso pode oferecer um risco maior ao paciente, pois quanto mais fragmentado o processo de cuidado, mais riscos o doente corre.

Acredito que o Brasil poderia unificar a profissão, consolidando apenas uma área para a enfermagem. Desde os anos de 1970, Portugal unificou o curso da área de enfermagem. Antes nós também tínhamos os auxiliares de enfermagem e enfermeiros.

IBSP – A diferenciação de cargos interfere na comunicação e no trabalho multidisciplinar?
Susana Ramos – Bastante. Da minha experiência em enfermagem, percebi que é difícil a comunicação multidisciplinar. Nós temos as intervenções autônomas e interdependentes com a equipe. E penso que, no Brasil, com três equipes diferentes, a atuação da categoria fica ainda mais complicada. Afinal, esses profissionais interagem com médicos, com fisioterapeutas, fonoaudiólogos, etc.

Em uma ocasião aqui no Brasil, perguntei a alguns colegas: o que o auxiliar de enfermagem pode fazer efetivamente? Pode administrar medicamentos? Alguns responderam que sim e outros que não. Ou seja, ainda não há um consenso sobre as funções de cada cargo. Com isso, a pergunta que fica é: ‘Até aonde vai cada fronteira?’. É preciso pensar em mudanças.

IBSP – Qual é a palavra-chave para o sucesso das boas práticas de segurança do paciente nas instituições?
Susana Ramos – Conscientização. Nós, enfermeiros, somos a chave da mudança e temos que perceber isso. Precisamos nos conscientizar de que nós podemos fazer a diferença na segurança do paciente. Isso porque estamos 24 horas com o doente e, de fato, a mudança de comportamento é capaz de contaminar o restante da equipe.

Tudo o que falamos sobre a segurança do paciente não é uma teoria. São atitudes que precisam fazer parte da prática diária, assim como saber administrar uma injeção. Precisamos incorporar essa cultura. Não podemos somente preparar os profissionais tecnicamente, é necessário prepará-los humanamente, com qualidade e foco em segurança do paciente.

IBSP – Qual é o maior desafio da enfermagem para atuar com foco em segurança do paciente?
Susana Ramos – Qualquer profissional da saúde precisa ter a noção de que não sabe tudo. Nossa fragilidade com o cuidado com o paciente está sempre presente, sendo assim, precisamos ter maturidade e humildade de perceber que nem tudo pode correr bem. Com isso em mente, certamente vamos conseguir aumentar a segurança do paciente. Temos que saber até aonde podemos ir. E, quando não tivermos certeza, precisamos parar e nos apoiar na equipe para que a abordagem seja mais segura.

IBSP – A tecnologia pode ajudar?
Susana Ramos – Muito, mas espero que possa ajudar ainda mais. Temos que relatar os incidentes, pois, por meio deles, podemos desenvolver mecanismos de segurança para evitar o mesmo erro. Isso quer dizer que precisamos dar visibilidade ao erro para que possamos pensar em soluções.

Além disso, acredito que há mecanismos que deveriam ser obrigatórios, mesmo em locais com condições mais escassas, como a pulseira de identificação com leitura ótica. Uma pena que em Portugal não seja imprescindível, assim como não é no Brasil. Ao fazer a leitura da pulseira, o profissional teria certeza de que o medicamento é destinado ao paciente certo e que aquele remédio é o correto. O fator humano é sempre passível ao erro. A tecnologia precisa estar ao nosso lado para nos ajudar.

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