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“O controle de infecções está nas mãos de todos”, diz infectologista

“O controle de infecções está nas mãos de todos”, diz infectologista
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A OMS divulgou uma lista com as 12 bactérias resistentes que representam a maior ameaça. Médica especialista em biossegurança e controle de Infecções e Risco Sanitário Hospitalar analisa e comenta o assunto

Estima-se que cerca de 700 mil pessoas morram todos os anos em decorrência de infecções por bactérias resistentes a medicamentos. É um problema que se agrava com uso indiscriminado de antibióticos. E não só pelo uso não racional de antimicrobianos segundo microbiota local e perfil de sensibilidade destes aos antimicrobianos, como também devido a uma importante lacuna entre a atual disseminação mundial de bactérias multirresistentes e o desenvolvimento de novos fármacos antimicrobianos.

“Também se observam atividades in vitro contra bactérias gram-negativas resistentes a antibióticos, assim como uma diminuição do arsenal de antimicrobianos devido ao desaparecimento e ou indisponibilidade (temporária) de medicamentos mais antigos, o que força aos prescritores usar drogas de amplo espectro, o que influencia negativamente as políticas de uso racional destes”, afirma a Dra. Sylvia Lemos Hinrichsen, médica infectologista especializada em biossegurança e controle de Infecções e Risco Sanitário Hospitalar, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Recentemente, a OMS divulgou uma lista com as 12 bactérias resistentes que representam a maior ameaça e que devem ser o foco principal das pesquisas para criação de novos antibióticos.

Em entrevista ao Portal IBSP, a infectologista Sylvia Hinrichsen, consultora do IBSP, avalia o cenário das bactérias multirresistentes e a relação com o desenvolvimento de novos medicamentos, além de comentar em detalhes da lista da OMS. Confira a seguir:

IBSP – Estamos à beira de um colapso do uso de antibióticos? Caso não se tome medidas, infecções corriqueiras podem voltar a ser fatais?
Sylvia Hinrichsen – Sim. Se não houver uma conscientização no uso racional de antimicrobianos segundo microbiota, padrões de sensibilidade, de acordo com programas de controle de infecções/higienização das mãos e da gestão racional de uso destes – stewardship, em pouco tempo o arsenal de antibióticos existente poderá não ser mais efetivo para as infecções, sejam simples ou graves. Também é importante o controle de uso de antibióticos na veterinária e nos agricultura dos alimentos, que também contribuem para o padrão de resistência intrínseca dos indivíduos expostos a estes.

IBSP – A lista das superbactérias da OMS é dividida em três categorias: situação crítica, alta prioridade e média prioridade. Poderia nos comentar brevemente esta divisão e quais bactérias estão em cada categoria?
Sylvia Hinrichsen – Essa lista não só é didática, mas é prática do ponto de vista de visualização de prioridades no controle de infecções, pois sinaliza as potencialidades para o desenvolvimento de novos antimicrobianos.

Na realidade, essa lista foi elaborada numa tentativa de orientar e promover a investigação e desenvolvimento (I&D) de novos antibióticos, como parte dos esforços da OMS para enfrentar a crescente resistência global aos medicamentos antimicrobianos. Neste contexto, destaca-se, em particular, a ameaça de bactérias Gram-negativas que são resistentes a múltiplos antibióticos, e que possuem habilidades intrínsecas para encontrar novas maneiras de resistir ao tratamento, podendo passar ao longo de material genético, permitindo que outras bactérias se tornem resistentes aos fármacos também.

A lista da OMS é dividida em três categorias de acordo com a urgência da necessidade de novos antibióticos: prioridade crítica, alta e média. E o grupo considerado como o mais crítico de todos inclui bactérias multidrogas resistentes, que representam uma ameaça particular em hospitais, casas de repouso e entre os pacientes cujos cuidados exigem dispositivos como ventiladores e cateteres de sangue, que incluem: Acinetobacter, Pseudomonas e várias Enterobacteriaceae (incluindo Klebsiella, Escherichia. coli, Serratia e Proteus. Bactérias estas que causam infecções graves e muitas vezes fatais, como infecções da corrente sanguínea e pneumonia.

IBSP – O que a maioria dessas bactérias tem em comum é o fato de serem Gram-negativas, conhecidas por serem naturalmente mais resistentes aos antibióticos?
Sylvia Hinrichsen – São bactérias endógenas (de flora individual) que podem ser translocadas em situações clínicas específicas, causando infecções em diversos sítios. Além de poderem ser transmitidas (exógenas) através de quebras de barreiras (como a não higienização das mãos entre procedimentos, antes e após contato com pacientes) sendo importantes na transmissão cruzada entre pacientes, setores e até instituições.

Também são bactérias que podem ser encontradas em ambiente e equipamentos que não foram higienizados corretamente e também em biofilmes, especialmente em procedimentos que envolvam próteses e biomateriais.

E se elas apresentam padrões de resistência, estes podem ser disseminados entre pacientes e instituições.

IBSP – Essas bactérias do topo da lista são as responsáveis pelas infecções hospitalares como meningite, infecção de locais de cirurgia, pneumonia, etc?
Sylvia Hinrichsen – Sim, além de infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) como: 1- pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV); 2 – infecção do trato urinário associada à sonda vesical de demora; 3 – infecção relacionada a cateter; e 4 – de sítio cirúrgico, em pacientes assistidos em hospitais e/ ou outros (como home care / asilos).

IBSP – Marie-Paule Kieny, da OMS, afirma que “se nós deixarmos a cargo apenas das forças do mercado, os novos e mais urgentes antibióticos não serão desenvolvidos a tempo”. O que você pensa sobre esta declaração?
Sylvia Hinrichsen – Importante. Neste contexto, todos nós somos responsáveis. Há necessidade de se falar no tema, estudá-lo e monitorar os seus resultados no dia a dia das atividades de controle de infecções. E, através destas, ter dados que mostrem a real necessidade de não só usar os antimicrobianos existentes de forma adequada, mas também de estimular o desenvolvimento de novos antibióticos segundo necessidades reais. O controle de infecções está em nossas mãos.

 

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