Estudo sugere que reduzir cobertura mantém mortalidade semelhante e diminui tempo de internação
A antibioticoterapia precoce com antibióticos de amplo espectro é um pilar do manejo inicial da sepse. No entanto, a permanência prolongada dessa estratégia, quando microrganismos multirresistentes não são identificados, expõe o paciente a riscos adicionais e contribui para a resistência antimicrobiana. O estudo “Antibiotic De-Escalation in Adults Hospitalized for Community-Onset Sepsis” investigou exatamente esse ponto crítico da prática clínica para compreender se é seguro reduzir a cobertura antibiótica no 4º dia de internação.
Os pesquisadores analisaram quase 37 mil pacientes adultos hospitalizados com sepse adquirida ou fora do hospital ou nos primeiros dias da internação em 67 hospitais. Todos iniciaram terapia empírica com antibióticos de amplo espectro e não apresentaram evidência microbiológica de organismos multirresistentes (MDRO) nos primeiros dias de internação.
O quarto dia de internação foi definido como o ponto-chave para avaliação do descalonamento pois, nesse momento, a prática clínica já dispõe de informações relevantes: evolução clínica inicial, culturas coletadas, dados laboratoriais e resposta ao tratamento. Ainda assim, a decisão de manter ou reduzir antibióticos de amplo espectro varia amplamente entre serviços e profissionais.
O estudo avaliou dois cenários específicos:
- Descalonamento da cobertura anti-MRSA
- Descalonamento da cobertura anti-Pseudomonas aeruginosa (ou outros gram-negativos resistentes)
Foram incluídos apenas pacientes que permaneceram em uso de antibióticos no terceiro dia e que não apresentaram culturas positivas para esses patógenos.
Principais resultados: segurança preservada
Após ajuste por escore de propensão e ponderação pela probabilidade inversa do tratamento, os resultados mostraram consistência entre os grupos:
- Mortalidade por todas as causas em 90 dias foi semelhante entre pacientes que tiveram a antibioticoterapia descalonada e aqueles que mantiveram cobertura de amplo espectro, tanto para anti-MRSA quanto para anti-Pseudomonas.
- Não houve aumento de mortalidade hospitalar ou em 30 dias, nem diferença relevante em desfechos compostos de mortalidade hospitalar ou alta para cuidados paliativos.
Esses achados reforçam que, em pacientes com sepse adquirida fora do ambiente hospitalar, sem evidência de MDRO, o descalonamento no 4º dia não compromete a segurança clínica.
Menos antibiótico, menos internação
Além da segurança, o estudo demonstrou benefícios assistenciais claros como redução significativa dos dias de antibioticoterapia até o 14º dia, incluindo antibióticos prescritos na alta; e menor tempo de internação hospitalar nos grupos que passaram por descalonamento, tanto para anti-MRSA quanto para anti-Pseudomonas. Além disso, todos os demais desfechos secundários foram semelhantes entre os grupos.
Em análises exploratórias, a redução da cobertura anti-Pseudomonas também se associou a menor taxa de readmissão em 90 dias, sugerindo possível impacto positivo na recuperação pós-alta.
Em um subgrupo de pacientes clinicamente estáveis no terceiro dia de internação, o descalonamento da cobertura anti-MRSA esteve associado a menor mortalidade em 90 dias. Embora essa análise envolva uma população menor, o achado sugere que, quando a estabilidade clínica está presente, a redução da antibioticoterapia pode trazer benefícios adicionais além da redução de exposição.
Variabilidade entre hospitais
Um dos achados relevantes do estudo foi a ampla variação na prática clínica. Entre os 67 hospitais avaliados, a proporção de pacientes elegíveis que tiveram a terapia descalonada variou mais de duas vezes:
- anti-MRSA: de aproximadamente 27% a mais de 60%
- anti-Pseudomonas: de menos de 7% a quase 38%
Essa heterogeneidade indica que a decisão de descalonar não depende apenas do perfil clínico do paciente, mas também de fatores institucionais, culturais e organizacionais , o que inclui protocolos locais, suporte de programas como stewardship e acesso a ferramentas diagnósticas.
Referências:
(1) Antibiotic De-Escalation in Adults Hospitalized for Community-Onset Sepsis
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