Campanha global destaca a complexidade do cuidado contínuo e reforça a necessidade de integrar segurança do paciente em toda a jornada assistencial
A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou o tema do Dia Mundial da Segurança do Paciente 2026, celebrado em 17 de setembro: “Cuidados seguros para doenças não transmissíveis”, com o slogan “Cuidado seguro para a vida!”. A escolha coloca no centro do debate global um dos maiores desafios contemporâneos da saúde: garantir segurança assistencial em condições que exigem acompanhamento contínuo, múltiplas intervenções e coordenação entre diferentes níveis de cuidado.
As doenças não transmissíveis (DNTs) – que no Brasil são mais comumente conhecidas pela nomenclatura Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCTNs) – representam hoje a principal causa de morte no mundo. Em 2021, foram responsáveis por pelo menos 43 milhões de óbitos, o equivalente a 75% das mortes não relacionadas à pandemia. Dentre esses casos, 18 milhões ocorreram antes dos 70 anos, sendo que 82% das mortes prematuras concentram-se em países de baixa e média renda.
As doenças cardiovasculares lideram esse cenário, com cerca de 19 milhões de mortes, seguidas por câncer (10 milhões), doenças respiratórias crônicas (4 milhões) e diabetes (mais de 2 milhões). Juntas, essas quatro condições representam 80% das mortes prematuras por DNTs.
Segurança do paciente ao longo de toda a jornada do cuidado
A campanha de 2026 enfatiza que pacientes com doenças crônicas estão expostos a riscos em diferentes momentos do cuidado, da prevenção ao diagnóstico, do tratamento ao acompanhamento de longo prazo e ao autocuidado. Esse cenário amplia a complexidade assistencial e exige abordagens mais integradas, seguras e centradas no paciente.
Segundo a OMS, melhorar a segurança nesse contexto passa por:
- fortalecer os sistemas de saúde, com foco na atenção primária;
- reduzir riscos relacionados à complexidade do cuidado;
- integrar determinantes sociais da saúde na análise de risco;
- ampliar o envolvimento ativo dos pacientes e suas comunidades;
- incorporar princípios de segurança em políticas, programas e práticas assistenciais.
A mobilização global inclui campanhas de conscientização, eventos técnicos e ações comunitárias, além da tradicional iluminação de monumentos na cor laranja, símbolo do movimento pela segurança do paciente.
Cenário brasileiro
No contexto brasileiro, o debate se amplia para as Doenças e Agravos Não Transmissíveis (DANT), conceito adotado pelo Ministério da Saúde que inclui, além das doenças crônicas, eventos como violências e acidentes, também relevantes no perfil epidemiológico do país.
Dados nacionais indicam que as DANTs são responsáveis por uma parcela expressiva da mortalidade: em 2019, 54,7% dos óbitos no Brasil foram causados por doenças crônicas não transmissíveis, enquanto 11,5% estiveram relacionados a agravos, como violências e acidentes.
Esses eventos estão diretamente associados a determinantes sociais como renda, escolaridade, acesso a serviços e desigualdades estruturais. No caso das violências, por exemplo, observa-se maior impacto entre homens jovens negros, evidenciando disparidades importantes no risco de morte.
A gestão desse cenário está estruturada no Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil (2021–2030), que estabelece diretrizes para prevenção de fatores de risco e promoção da saúde, com foco na redução das desigualdades.
O plano, que pode ser um excelente ponto de partida para o desenvolvimento de ações alinhadas à campanha deste ano da OMS, propõe:
- fortalecimento de políticas públicas intersetoriais;
- organização de serviços em redes de atenção;
- desenvolvimento de governança e gestão baseada em evidências;
- incentivo à inovação na gestão, pesquisa e assistência;
- ampliação da participação social.
Elaborado de forma colaborativa, com participação de diferentes setores da sociedade, o documento está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e às recomendações internacionais para enfrentamento das DANT.
IBSP acompanha agenda global
O IBSP acompanha de forma contínua os temas definidos pela OMS para o Dia Mundial da Segurança do Paciente, contribuindo para ampliar o debate no país.
A atuação inclui a produção e disseminação de conteúdos técnicos, análise de evidências científicas, tradução de diretrizes internacionais para a realidade brasileira e apoio às instituições de saúde na implementação de práticas seguras.
Diante da crescente complexidade do cuidado em doenças crônicas, o tema de 2026 reforça um ponto central: a segurança do paciente precisa estar presente em toda a jornada assistencial, incluindo em condições de cuidado prolongado e multifatorial.
Mais do que uma campanha anual, trata-se de um chamado global para reposicionar a segurança como eixo estruturante dos sistemas de saúde, com impacto direto na qualidade, nos desfechos clínicos e na sustentabilidade do cuidado. Considerando um cenário em que pesquisadores questionam se a segurança segue como prioridade nos serviços de assistência (leia matéria sobre isso AQUI), o tema deste ano pode contribuir para alavancar novamente esse cuidado rotineiro.
Referências:
(1) World Patient Safety Day, 17 September 2026: “Safe care for noncommunicable diseases”
(2) Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil 2021-2030
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