Nova edição revisa evidências, detalha fatores que impactam a adesão dos profissionais e reforça a higiene das mãos como uma das principais estratégias para prevenção de IRAS e resistência antimicrobiana
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a segunda edição do manual Segurança do Paciente em Serviços de Saúde: Higiene das Mãos, atualizando oficialmente um dos documentos mais relevantes para prevenção e controle das infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) no país. A primeira edição havia sido publicada em 2009.
A atualização ocorre em um momento particularmente simbólico para o setor. Maio concentra duas datas estratégicas para o debate sobre prevenção de infecções: o Dia Mundial da Higienização das Mãos, celebrado em 5 de maio pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e o Dia Nacional do Controle das Infecções Hospitalares, em 15 de maio.
A nova edição integra a série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde e se destina a profissionais e gestores de saúde de todos os níveis assistenciais, além de integrantes do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), educadores, pacientes e familiares. O objetivo central é fortalecer a promoção da higiene das mãos como prática prioritária de segurança do paciente.
Higiene das mãos como pilar de prevenção
O documento reforça que a higiene das mãos continua sendo considerada uma das medidas isoladas mais importantes para reduzir a transmissão cruzada de microrganismos dentro dos serviços de saúde.
A publicação revisa desde os fundamentos históricos da prática, incluindo os clássicos estudos de Ignaz Semmelweis, em 1846, até evidências contemporâneas sobre transmissão de patógenos pelas mãos de profissionais de saúde.
A nova edição também amplia a discussão sobre disseminação de microrganismos multirresistentes (MMR), destacando que as mãos permanecem como uma das principais vias de transmissão dentro do ambiente hospitalar e podem atuar como fator central em surtos infecciosos.
Além disso, o manual aprofunda aspectos microbiológicos da pele, mecanismos de transmissão cruzada e detalha os principais produtos utilizados para higiene das mãos, incluindo:
- sabonete comum;
- preparações alcoólicas;
- agentes antissépticos, como clorexidina.
O texto ainda aborda infraestrutura necessária, insumos essenciais e estratégias organizacionais para ampliar a adesão dos profissionais às práticas de higiene.
Adesão ainda permanece abaixo do ideal
Um dos pontos de maior destaque da atualização é a discussão sobre adesão às práticas de higiene das mãos.
Segundo o documento, as taxas de adesão variam amplamente entre diferentes países e serviços de saúde, oscilando entre 5% e 89%, com média global próxima de 40%. Os piores indicadores são observados em países de baixa renda.
A Anvisa detalha que os fatores que influenciam a adesão podem ser divididos em quatro grandes grupos:
Fatores individuais
- falta de conhecimento;
- baixa familiaridade com protocolos;
- esquecimentos;
- pouca experiência prática.
Fatores coletivos
- ausência de treinamento;
- sobrecarga de trabalho;
- dimensionamento inadequado;
- falta de feedback sobre desempenho;
- ausência de modelos positivos entre lideranças e colegas.
Fatores institucionais
- ausência de políticas organizacionais;
- baixa priorização institucional;
- inexistência de cultura de segurança;
- falta de reconhecimento aos profissionais aderentes.
Fatores governamentais
- insuficiência de políticas públicas;
- ausência de campanhas;
- baixa alocação de recursos;
- fragilidade regulatória.
O manual também destaca que programas efetivos de melhoria da adesão à higiene das mãos podem reduzir significativamente os custos assistenciais relacionados às IRAS, além de diminuir tempo de internação, morbidade e mortalidade.
Atualização dialoga com políticas nacionais de prevenção de IRAS
O documento também dialoga diretamente com o Programa Nacional de Prevenção e Controle das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (PNPCIRAS) 2026-2030, que reconhece a higiene das mãos como estratégia fundamental para prevenção de IRAS, redução da resistência antimicrobiana (RAM) e contenção de surtos infecciosos em todos os níveis de atenção.
Entre as ações estratégicas previstas pelo programa está o fortalecimento do monitoramento do consumo de produtos para higiene das mãos nos serviços de saúde.
Outro destaque da nova edição é a manutenção do tradicional infográfico dos “5 momentos para higiene das mãos”, amplamente difundido internacionalmente pela OMS, reforçando que os profissionais devem higienizar as mãos:
- antes de tocar o paciente;
- antes de procedimentos limpos ou assépticos;
- após risco de exposição a fluidos corporais;
- após tocar o paciente;
- após contato com superfícies próximas ao paciente.
Efeitos adversos e estratégias de proteção da pele também ganham espaço
A nova edição também dedica um capítulo aos efeitos adversos associados aos produtos utilizados para higiene das mãos, tema frequentemente relacionado à baixa adesão dos profissionais. O documento descreve reações como:
- dermatite de contato irritativa;
- dermatite de contato alérgica;
- ressecamento cutâneo.
Além disso, apresenta estratégias para minimizar esses efeitos, incluindo seleção adequada de produtos, uso racional de antissépticos e cuidados complementares com a pele dos profissionais.
Ao atualizar o manual após mais de 15 anos, a Anvisa reforça que a higiene das mãos permanece como uma prioridade central da segurança do paciente e da prevenção de infecções nos serviços de saúde brasileiros.
Referências:
(1) Segurança do Paciente em Serviços de Saúde: Higiene das Mãos
Avalie esse conteúdo
Média da classificação 5 / 5. Número de votos: 1