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Por que o bundle E-MOTIVE funcionou? Estudo revela os bastidores da implementação

Por que o bundle E-MOTIVE funcionou? Estudo revela os bastidores da implementação
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Análise mostra como treinamento, equipes preparadas e disponibilidade de insumos foram decisivos para reduzir complicações da hemorragia pós-parto

Uma intervenção só produz resultados quando consegue ser implementada de forma consistente na prática clínica. Essa é uma das principais mensagens de duas publicações recentes da The Lancet Global Health. Enquanto o estudo “Early detection and a treatment bundle strategy for postpartum haemorrhage: a mixed-methods process evaluation” avaliou como ocorreu a implementação do bundle E-MOTIVE em hospitais africanos, um artigo de análise assinado pela pesquisadora norte-americana Jill Durocher e por Sam Ononge, professor sênior na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Makerere, em Kampala, Uganda, discutiu as principais lições aprendidas para futuras expansões da estratégia.

Os dois trabalhos complementam o ensaio clínico multicêntrico E-MOTIVE que, publicado anteriormente, demonstrou uma redução de 60% nos desfechos maternos graves relacionados à hemorragia pós-parto, incluindo hemorragia grave, laparotomia por sangramento e óbito materno. Assim como destacado pela Fiocruz no Brasil, o estudo envolveu mais de 200 mil mulheres atendidas em aproximadamente 80 hospitais do Quênia, Nigéria, África do Sul e Tanzânia, tornando-se uma das mais robustas evidências recentes sobre segurança obstétrica.

Mais do que confirmar a eficácia clínica da intervenção, a nova avaliação de Durocher e Ononge buscou responder uma pergunta igualmente importante: por que o bundle funcionou tão bem e quais condições precisam existir para que ele tenha sucesso fora de um estudo clínico?

Entenda o histórico

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define hemorragia pós-parto (HPP) como a perda sanguínea superior a 500 mililitros após parto vaginal, superior a 1.000 mililitros após cesariana, ou qualquer perda capaz de provocar instabilidade hemodinâmica nas primeiras 24 horas após o parto.

Globalmente, a HPP permanece como uma das principais causas de mortalidade materna, sendo responsável por aproximadamente 27% das mortes maternas. No Brasil, também representa um desafio expressivo: figura entre as principais causas de óbito materno e, entre 1997 e 2009, respondeu por cerca de 41% das mortes maternas por hemorragias.

Foi justamente para enfrentar esse cenário que surgiu o E-MOTIVE, estratégia desenvolvida para promover a detecção precoce da hemorragia e o início imediato do tratamento. O bundle combina dois componentes centrais: utilização de um dispositivo coletor, permitindo mensurar objetivamente a perda sanguínea e evitar a subestimação do sangramento; e início, em até 15 minutos após o diagnóstico, de um conjunto padronizado de intervenções baseado em evidências.

A sigla MOTIVE representa os componentes terapêuticos do bundle:

  • M – Massagem uterina;
  • O – Ocitocina;
  • T – Ácido tranexâmico;
  • IV – Fluidos intravenosos;
  • E – Escalonamento do cuidado.


Além do tratamento propriamente dito, o E-MOTIVE incorpora estratégias de implementação, como treinamento baseado em simulação, líderes clínicos locais, auditoria contínua, feedback dos indicadores e organização dos materiais em carrinhos ou maletas específicas para hemorragia pós-parto.

Implementação é a chave do sucesso

O estudo acompanhou 2.578 partos vaginais, incluindo 295 casos de hemorragia pós-parto nos hospitais africano previamente citados. Também foram realizadas entrevistas qualitativas com profissionais de saúde e aplicados 889 questionários, permitindo analisar aspectos como fidelidade, aceitabilidade, viabilidade e adoção da intervenção. Os resultados mostraram níveis elevados de adesão.

O dispositivo coletor foi utilizado em praticamente 100% dos partos observados, enquanto o bundle MOTIVE foi aplicado integralmente em 96,9% das mulheres diagnosticadas com hemorragia pós-parto. Além disso, em aproximadamente dois terços dos casos, o tratamento completo foi iniciado em até 15 minutos após o diagnóstico.

Para Durocher e Ononge, entretanto, o aspecto mais relevante não está apenas nos números, mas na compreensão dos fatores que tornaram esses resultados possíveis. Segundo eles, a implementação bem-sucedida foi sustentada por quatro pilares principais:

  • disponibilidade contínua de medicamentos e insumos;
  • treinamento estruturado das equipes;
  • liderança clínica local;
  • fortalecimento da organização dos serviços de saúde.


Esses elementos explicam por que a OMS passou a recomendar oficialmente o bundle E-MOTIVE em ambientes hospitalares.

Sobrecarga das equipes é desafio, assim como sustentabilidade

Se por um lado o estudo demonstrou elevada fidelidade ao bundle, por outro também revelou limitações importantes para sua implementação em condições reais.

Um dos principais achados foi o envolvimento frequente de parteiras contratadas especificamente para o estudo na execução das atividades assistenciais, especialmente na Nigéria e na Tanzânia.

Embora essas profissionais tivessem inicialmente função de apoio à pesquisa, acabaram assumindo atividades clínicas durante episódios de hemorragia devido à escassez de profissionais nas instituições.

Na avaliação dos autores da análise, esse resultado evidencia uma questão crítica: a implementação de bundles depende diretamente da disponibilidade de recursos humanos. E essa é uma questão global que se reflete, obviamente, também no Brasil.

Os pesquisadores destacam que a literatura internacional já demonstra associação entre melhores proporções paciente-profissional e melhores desfechos clínicos. Portanto, ampliar o acesso ao bundle exigirá investimentos não apenas em treinamento, mas também em força de trabalho adequada.

Outro ponto identificado foi a dificuldade de manter o monitoramento pós-parto conforme recomendado. Embora praticamente todas as pacientes fossem avaliadas aos 15 minutos após o parto, a adesão diminuía progressivamente nas avaliações subsequentes de 30, 45 e 60 minutos.

Aqui, novamente, entre os principais motivos relatados estavam elevada carga de trabalho, escassez de equipamentos, necessidade de dividir monitores e aparelhos de pressão arterial e priorização simultânea de outras demandas assistenciais.

Assim, apesar dos resultados extremamente positivos, tanto a avaliação quanto a análise ressaltam que ainda existem dúvidas importantes sobre a sustentabilidade da estratégia fora do ambiente controlado de um ensaio clínico.

Durante o estudo, houve monitoramento frequente dos estoques de medicamentos e materiais, favorecendo a reposição rápida dos insumos. Entretanto, os autores questionam se essa disponibilidade será mantida quando o bundle passar a integrar rotinas assistenciais permanentes.

O mesmo raciocínio vale para os dispositivos coletores, considerados peça central da estratégia de detecção precoce.

Brasil já incorpora recomendações semelhantes

Embora o estudo tenha sido conduzido em países africanos, parte de suas recomendações já são observadas no Brasil. Em 2025, a Ebserh publicou um protocolo nacional de manejo da hemorragia pós-parto que traz métodos objetivos de estimativa da perda sanguínea, critérios para diagnóstico, protocolos terapêuticos, organização assistencial e um modelo estruturado de bundle para o manejo da HPP, assim como o E-MOTIVE.

O documento também detalha competências das equipes multiprofissionais, fatores de risco, classificação clínica e fluxos de atendimento, aproximando as recomendações brasileiras das evidências internacionais mais recentes.

Referências:

(1) Lessons for future implementation of the E-MOTIVE bundle

(2) Early detection and a treatment bundle strategy for postpartum haemorrhage: a mixed-methods process evaluation

(3) EBSERH – Protocolo de Manejo da Hemorragia Pos Parto

(4) Protocolo E-MOTIVE e redução de hemorragias pós-parto (OMS)

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