* Por Carolina Cazarini e Tatiara Barreto
Quem trabalha com consultoria em segurança do paciente costuma ouvir uma pergunta recorrente: vocês têm um modelo pronto para compartilhar? Acontece que ao ouvir esse questionamento, a única resposta possível é “não”.
O setor da saúde está repleto de protocolos prontos, estudos, diretrizes que podem (e devem) ser incorporadas ao dia a dia da assistência. Mas se tudo isso não for pensado de forma estratégica e adequado à realidade de cada instituição, pode ter certeza que os resultados deixarão a desejar.
No IBSP, a gente acredita que segurança do paciente não se implanta somente com a incorporação de um bunddle, um checklist ou um pacote de documentos. Ela nasce da compreensão profunda da realidade de cada instituição. E talvez esse seja um dos nossos grandes diferenciais.
Essa convicção foi ficando cada vez mais evidente com a expansão do nosso trabalho pelo Brasil, inclusive quando chegamos a um hospital de média e alta complexidade localizado na Ilha do Marajó, no Pará, norte do nosso país.
Para quem nunca esteve lá, vale contextualizar. A Ilha do Marajó é considerada uma das maiores ilhas fluviomarítimas do mundo. Para chegar até muitos de seus municípios, inclusive Breves, onde está localizado o hospital que acompanhamos, não existe estrada. Chega-se de barco. Um medicamento que sai de Belém pode levar até 12 horas para chegar ao destino. Equipamentos, insumos e até profissionais enfrentam a mesma logística. Se for possível ir de lancha, até consegue-se reduzir esse tempo, mas nem sempre há essa opção.
Essa é uma realidade completamente diferente daquela encontrada em hospitais de São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba ou qualquer outro grande centro. E justamente por isso seria um erro tentar implantar exatamente os mesmos processos das metrópoles em uma ilha bastante afastada.
Ao longo da nossa experiência, aprendemos que qualidade não significa padronizar hospitais. Significa padronizar princípios e adaptar processos. Em locais onde a logística impõe limitações importantes, os planos de contingência precisam ser mais robustos. Onde a reposição de materiais demora mais, a gestão de estoque precisa funcionar de outra maneira. Onde há dificuldade para contratar profissionais especializados, o desenvolvimento das equipes locais ganha ainda mais importância.
A segurança do paciente continua sendo a mesma, mas o caminho para alcançá-la muda bastante e essa é uma das maiores lições que aprendemos viajando pelo Brasil.
Cada hospital possui seus próprios desafios. Alguns convivem com alta rotatividade de profissionais. Outros enfrentam limitações estruturais ou financeiras. Há instituições em regiões metropolitanas com enorme complexidade assistencial. Há hospitais em municípios remotos que precisam adaptar diariamente seus processos para garantir o cuidado seguro. Nenhuma dessas realidades é melhor ou pior. Elas são apenas diferentes.
E é justamente por isso que nunca chegamos levando respostas prontas. Nosso ritmo envolve observar, conversar com as equipes, percorrer os fluxos, entender como aquela unidade funciona e, só então, começamos a enxergar as falhas e desenhar soluções para melhorias.
Na Ilha do Marajó, por exemplo, percebemos rapidamente que algumas recomendações utilizadas em grandes centros simplesmente não fariam sentido naquele contexto. Era necessário construir processos compatíveis com os recursos disponíveis. Se não é possível implementar todas as ações ao mesmo tempo, definimos prioridades.
Se uma equipe ainda não consegue avaliar todos os pacientes, começamos pelos pacientes de maior risco. Se a farmácia clínica não consegue acompanhar todos os internados, estruturamos o acompanhamento dos casos mais críticos. São pequenos ciclos de melhoria onde cada conquista abre espaço para a próxima.
Ao longo dos anos, tivemos a oportunidade de acompanhar hospitais de diferentes portes, especialidades e regiões do país. Cada projeto nos mostrou uma realidade diferente, mas todos nos ensinaram a mesma coisa: não existe um único Brasil quando falamos em assistência à saúde; são vários Brasis. E essa é a lógica que mais respeita a realidade da instituição e, como consequência, os pacientes que ali frequentam.
* Carolina Cazarini e Tatiara Barreto são consultoras do IBSP
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