Pesquisa identifica maior vulnerabilidade entre lactentes e mostra que erros de administração provocam mais danos do que erros de prescrição, apesar de ocorrerem com menor frequência
As crianças mais novas, especialmente aquelas com menos de um ano de idade, apresentam maior risco de sofrer danos decorrentes de erros de medicação durante a internação hospitalar. A conclusão é de um estudo publicado na revista Drug Safety, intitulado “Harm to Children from Prescribing and Administration Errors in Acute Care: A Multidisciplinary Panel Assessment”, que analisou quais erros de prescrição e administração efetivamente resultaram em danos clínicos em pacientes pediátricos hospitalizados.
Embora diversos estudos já tenham investigado a ocorrência de erros de medicação em pediatria, a maior parte deles avalia apenas o potencial de dano dessas falhas. O diferencial desta pesquisa foi analisar o dano real, ou seja, identificar nos prontuários quais erros realmente produziram consequências clínicas para os pacientes.
Para isso, pesquisadores revisaram mais de 26 mil prescrições médicas e mais de 5 mil administrações de medicamentos realizadas em um hospital pediátrico australiano. Após uma triagem inicial, 566 casos considerados de maior risco foram submetidos à análise de um painel multidisciplinar formado por médicos, enfermeiros e farmacêuticos, responsável por determinar se houve dano ao paciente e qual sua gravidade.
Ao todo, foram identificados 89 casos de dano real relacionado a erros de medicação. A maioria foi classificada como leve ou moderada, e não houve registros de óbitos decorrentes desses eventos.
O principal achado da pesquisa foi a associação entre idade e ocorrência de danos. Segundo os autores, crianças mais jovens apresentaram risco significativamente maior de sofrer consequências clínicas após um erro de medicação. Os lactentes, com menos de 12 meses de idade, concentraram a maior proporção de danos identificados, principalmente nos casos relacionados à administração de medicamentos.
Os pesquisadores destacam que essa maior vulnerabilidade está relacionada às características próprias da população pediátrica, como necessidade de ajustes individualizados de dose conforme peso e idade, maior sensibilidade fisiológica e dificuldade de identificação precoce de sinais clínicos de deterioração.
Antibióticos lideram os casos com dano
Outro resultado importante foi a identificação dos medicamentos mais frequentemente envolvidos nos eventos com dano. Os antibacterianos apareceram como a classe terapêutica mais associada aos casos analisados, tanto nos erros de prescrição quanto nos de administração.
Entre os erros de prescrição que produziram dano, predominaram:
- doses incorretas, tanto superdosagem quanto subdosagem;
- prescrição da via de administração inadequada.
Já entre os erros de administração, o problema mais frequente foi a infusão intravenosa de antibióticos em velocidade superior à recomendada, especialmente em crianças menores de um ano. Esse tipo de falha esteve associado a complicações como inflamação do acesso venoso e necessidade de nova punção.
Interessante observar que embora os erros de prescrição tenham sido numericamente mais frequentes ao longo da pesquisa, os autores observaram que os erros ocorridos durante a administração dos medicamentos apresentaram maior probabilidade de resultar em dano efetivo ao paciente.
Enquanto apenas uma pequena parcela dos erros de prescrição evoluiu para dano clínico, os erros de administração produziram danos em uma proporção significativamente maior.
Segundo os pesquisadores, esse achado reforça a necessidade de fortalecer as barreiras de segurança também na etapa final da cadeia medicamentosa, quando o medicamento chega efetivamente ao paciente.
Por fim, entre as estratégias sugeridas para melhoria desse cenário estão o aprimoramento dos processos relacionados à administração intravenosa de medicamentos, especialmente antibióticos, o fortalecimento das práticas de cálculo e validação de doses em pediatria e o desenvolvimento de treinamentos direcionados às situações de maior risco.
Os pesquisadores concluem que compreender quais erros realmente produzem danos oferece informações mais úteis para a implementação de ações de melhoria do que analisar apenas o potencial de risco dos eventos. Dessa forma, intervenções específicas voltadas aos grupos mais vulneráveis podem contribuir para reduzir danos evitáveis e fortalecer a segurança da cadeia medicamentosa nos serviços de saúde.
Segundo Lucas Zambon, diretor Científico do IBSP, a importância deste artigo está em fornecer um direcionamento sobre a criação de barreiras de segurança para a população pediátrica a respeito de erros de medicação, algo que nem sempre é viável de ser construído localmente. “Isso porque nem toda organização tem uma estrutura que viabilize aprendizado através de informações locais. Sendo assim, devemos buscar na literatura científica o direcionamento para nossas ações, para promover uma Segurança do Paciente baseada em evidências”, comenta.
Referências:
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