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Será que deixamos de entender a segurança do paciente como decisão estratégica?

Será que deixamos de entender a segurança do paciente como decisão estratégica?
Karina
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* Por Karina Pires

Para quem trabalha com saúde, o mês de abril sempre carrega um peso diferente, pois é nele que o movimento “Abril pela Segurança do Paciente” ganha força e visibilidade, mobilizando equipes e instituições. É a nossa hora de tocar nas feridas mais antigas do nosso setor e questionar: o que, de fato, muda depois de abril?

Não se trata de uma reflexão teórica. Nas minhas mais recentes conversas com lideranças, nas consultorias que conduzimos junto ao time do IBSP e, inclusive, em uma aula recente que ministrei para as equipes clínicas do Hospital Nipo Brasileiro, que tem duas unidades atuantes na capital paulista, esse tema sempre se faz presente. Compartilhamos a mesma preocupação: será que a segurança do paciente tem sido tratada como um valor presumido, em vez de uma prioridade explícita?

Esse questionamento não é novo. Em 2023, Donald Berwick já alertava para a perda da “constância de propósito” na segurança do paciente. Segundo ele, muitas instituições passaram a tratar a segurança como algo dado, quase automático, quando, na verdade, ela exige liderança ativa, investimento contínuo e decisões difíceis.

Especialistas europeus também têm publicado questionamentos semelhantes. Um artigo recente apontou que a segurança do paciente talvez não ocupe mais um lugar central nas agendas estratégicas dos sistemas de saúde. A provocação caiu como uma luva para o que estávamos debatendo dentro do IBSP, e resolvemos nos aprofundar nesse tema em uma análise que vale a leitura e pode ser acessada AQUI

Os dados aos quais temos acesso reforçam essa preocupação.

Há estudos recentes mostrando que quase 4 em cada 10 pacientes sofrem eventos adversos durante a internação hospitalar. Esse é um número preocupante, que indica uma estagnação quando comparado aos avanços esperados nas últimas décadas. Quando olhamos para o impacto econômico, a OCDE estima que os danos ao paciente geram custos superiores a US$ 50 bilhões por ano no mundo.

Ou seja: estamos falando de um problema sistêmico, persistente e extremamente relevante. De um risco silencioso que nos leva a acreditar que “melhorar” é apenas fazer mais.

Tenho observado que a substituição da melhoria real pela contagem de atividades é uma armadilha perigosa. Projetos de melhoria da qualidade muitas vezes passam a focar no aumento de volumes (de atendimentos, protocolos, registros e indicadores) sem, de fato, questionar se tudo isso realmente melhora o desfecho do paciente.

Um editorial publicado por especialistas do Imperial College London chamou atenção para esse ponto. Eles descrevem esse risco silencioso como a transformação da melhoria da qualidade em um verdadeiro “jogo de números”. E isso tem consequências. Quando fazemos mais sem avaliar impacto, podemos gerar:

• sobrediagnóstico
• ansiedade desnecessária
• polifarmácia
• desperdício de recursos
• e, principalmente, danos evitáveis

Já presenciei situações em que indicadores positivos eram comemorados, mas, em paralelo, os eventos adversos seguiam acontecendo. O checklist estava preenchido, a meta estava batida, mas o risco permanecia ali, intocado.

É a constatação de que cumprir metas nem sempre significa melhorar o cuidado.

E, se pensarmos em governança? Quando falamos de segurança do paciente, é comum e válido associarmos o tema a protocolos, treinamentos e acreditações. Tudo isso é importante, mas a preocupação não pode parar por aí. Até porque governança não é apenas conformidade. É um compromisso visível, coerente e contínuo da liderança em enfrentar a complexidade dos sistemas de saúde.

Justamente por isso, organizações mais maduras em segurança trabalham com uma lógica diferente. Elas não se limitam a medir volume; buscam entender valor. E isso inclui avaliar desfechos clínicos reais, utilizar dados confiáveis e bem interpretados, ouvir a narrativa dos pacientes, incorporar a percepção dos profissionais e promover discussões estruturadas em equipe. Aqui, vale lembrar que a mais recente atualização do Protocolo de Londres nos ajuda a aprofundar essas investigações.

Na aula que mencionei anteriormente, no Hospital Nipo Brasileiro, discutimos exatamente isso: como sair de uma cultura de “check-box” e avançar para uma cultura de aprendizado contínuo. Porque, no fim do dia (ou no final do mês de abril), segurança não é sobre preencher campos. É sobre reduzir danos de forma consistente e sustentável.

Nunca é sobre fazer mais. É sobre fazer o que realmente importa, com consistência, responsabilidade e foco no paciente.

* Karina Pires é diretora de Novos Negócios do IBSP

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