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Registros eletrônicos -“É a vez de os hospitais aprenderem a voar”

Registros eletrônicos -“É a vez de os hospitais aprenderem a voar”
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Médico preenche dados no tablet: registros eletrônicos podem ajudar a reduzir assimetria de informações nas equipes (World Image/Bigstock)
Médico preenche dados no tablet: registros eletrônicos podem ajudar a reduzir assimetria de informações dentro das equipes (World Image/Bigstock)

O inglês Tim Morris tem mais de 30 anos de experiência: começou em uma emergência cheia em Londres, passou por cargos de gerência no sistema público inglês e atualmente desenvolve ferramentas de informação na Elsevier, a gigante holandesa que publica periódicos científicos e médicos, além de criar sistemas de informação para instituições de saúde. Como diretor de produtos para Europa, Oriente Médio, Ásia, África e América Latina, Morris usa sua experiência em hospitais para desenvolver sistemas que ajudam a enfermagem desde o processo de triagem até a alta dos pacientes. Em 19 de outubro, Morris estará no Brasil como um dos palestrantes do II Seminário Internacional de Enfermagem para a Segurança do Paciente, promovido pelo IBSP – Instituto Brasileiro de Segurança do Paciente, em São Paulo. Confira a programação completa.

Uma das especialidades de Morris é ajudar as instituições de saúde a resolver um problema de nome pomposo, mas bem rotineiro: a variabilidade. Quando informações sobre um paciente se perdem em meio à passagem de turno, cada equipe terá um visão parcial e não integral do cuidado – o que se refletirá na qualidade da assistência e no desfecho clínico. “A tecnologia pode contornar esse tipo de variabilidade”, afirma Morris, em entrevista concedida ao IBSP. Os registros médicos eletrônicos (EMRs, na sigla em inglês), sistemas que guardam todas as informações da jornada do paciente – e que ainda fornecem diretrizes e orientações aos profissionais -, podem funcionar como ferramentas importantes no processo de redução da variabilidade.

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Mas a introdução da tecnologia nos serviços de saúde esbarra em desafios: há instituições ainda na era do papel, muitos sistemas não se conversam, o que impede a integração de informações, além de riscos de vazamento de dados confidenciais e até de sequestro de sistemas operacionais dos hospitais. É sobre essas barreiras e como contorná-las para melhorar a qualidade do cuidado que Morris falará no seminário de outubro, tópicos que ele adianta na entrevista a seguir.

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IBSP – A variabilidade é algo inerente à biologia, mas um elemento de preocupação na assistência à saúde. Como ela afeta a segurança do cuidado?
Tim Morris – A aviação oferece um bom paralelo. Por muito tempo, cada piloto era responsável por decidir se o avião estava pronto para voar e quando deveria partir. Um dos problemas é que nem todos os pilotos eram bons em avaliar se o seu avião estava pronto para voar, outros não sabiam se as condições eram seguras. Havia grande variabilidade. Em muitas ocasiões, isso terminava em desastre. Então, o setor da aviação mudou para uma estrutura padronizada, com protocolos e checklists: todo mundo tinha que fazer a mesma coisa, sempre. Por isso, hoje é mais seguro voar. Agora, é a vez de os hospitais aprenderem a voar. É possível reduzir a variação na prática e entregar resultados mais seguros.

IBSP – Não faltam protocolos, diretrizes e checklists no setor de saúde. Por que, ainda assim, existe variabilidade?
Tim Morris – Há várias fontes de variabilidade. Primeiro, de informação. Na enfermagem, por exemplo, nenhuma enfermeira pode ser responsável por todo o cuidado do paciente. Existem outros profissionais envolvidos e, se a enfermagem tiver todas informações, pode cuidar melhor. É possível remover curativos no tempo adequado, reduzindo o risco de infecções. Há também a variação de conhecimento. Profissionais são mais ou menos experientes. Além disso, existe a dificuldade de se manter atualizado com todo o conhecimento disponível. Uma maneira de reduzir a variabilidade é dar aos profissionais o máximo de informação, na hora certa, para que escolham a conduta, a droga, o tratamento corretos. A tecnologia pode contornar esse tipo de variabilidade.  

IBSP – Os registros médicos eletrônicos costumam ser apontados como parte da solução da variabilidade. De que maneira uniformizam o conhecimento e o acesso à informação?
Morris –  Esperamos que a enfermagem esteja ciente de todos os riscos específicos associados ao cuidado dos pacientes. Mas, quando se pergunta a um grupo de enfermeiros quais são os riscos relacionados a uma intervenção cardíaca e os cuidados necessários, eles se lembram, talvez, de seis dos 15 riscos e se esquecem dos demais. Acessar uma orientação sobre esses cuidados, disponível dentro do sistema de registro de informações médicas, reduz essa variabilidade. Esses sistemas também podem capturar notas escritas pela enfermagem, além dos dados que são padrão. Dessa maneira, a informação fica disponível para toda a equipe. É algo útil em passagens de plantão, onde há maior risco de mensagens serem esquecidas.

IBSP – Alguns estudos sugerem que esses sistemas eletrônicos emitem tantos alertas que o excesso de informação pode levar os profissionais a perder resultados importantes. Outros mostram que consomem tempo demais para serem alimentados com dados. Pesquisas mostram que registros eletrônicos melhoram desfechos e são custo-efetivos?
Morris – O cuidado em saúde é uma série complexa de esforços. Quando os profissionais de saúde estão prontos para agir, evitando eventos adversos, é possível mostrar diretamente como impacta o custo. Nos Estados Unidos, um dia adicional no hospital custa US$ 10 mil. Para os serviços particulares, não admitir mais um paciente os torna menos eficazes e lucrativos. Para instituições públicas, significa desperdiçar dinheiro em vez de investi-lo na prevenção de infecções hospitalares.

IBSP – Há ainda quem esteja na era do papel?
Morris – No Brasil, vemos muito mais papel. Nem todos os hospitais têm registros eletrônicos e, se têm, não é sempre que são capazes de capturar todas as informações, como notas da enfermagem. O Brasil tem desafios em comum com países como Índia e China: muita vezes, as orientações não estão disponíveis no idioma local.

IBSP – O setor da saúde passa por uma grande discussão sobre sua sustentabilidade. Registros médicos eletrônicos podem ajudar a cortar custos, se as informações forem compartilhadas entre serviços. Isso reduziria exames duplicados e levaria a diagnósticos e tratamentos mais rápidos. As empresas já estão dispostas a compartilhar dados com seus concorrentes?
Morris – A saúde do paciente está 80% fora do hospital, mas a comunicação entre a atenção primária e secundária ainda é pobre. Os desenvolvedores de sistemas preferem manter a comunicação dentro de suas soluções, mas há uma movimentação global para aumentar a comunicação entre sistemas. A introdução de protocolos de segurança na programação, como o “FHIR” e o “SMART on FHIR”, sugerem como devemos mudar os sistemas. Em alguns países – o Reino Unido é um caso – já se usa uma nuvem central que capta todos os dados de um paciente. É a própria população que está ditando essa necessidade.   

IBSP – Com a migração para esses sistemas de registros médicos eletrônicos, há riscos de confidencialidade, em virtude de vazamento de informações dos pacientes, além de riscos operacionais para os hospitais por causa de cyber ataques, que sequestram os sistemas e tornam até UTIs inoperantes. Desenvolvedores e hospitais estão prontos para lidar com esse desafio?
Morris – É uma questão interessante. Há normas para saber se os medicamentos causam reações adversas e padrões para o desenvolvimento dos equipamentos médicos, mas ainda não se enxerga o sistema de registro médico eletrônico como um lugar de segurança da informação e não se pergunta o que tem sido feito para protegê-la. Nos hospitais, os firewalls precisam permitir a comunicação com o mundo exterior, mas também devem garantir que seja seguro fazer isso. Há novas ameaças. A internet das coisas penetrou no nossos hospitais. Temos impressoras e dispositivos sem fio que se comunicam com os sistemas dos pacientes. São zonas de risco e precisamos saber qual é o tamanho deles. Mas, quando olhamos algumas acreditações, como da Joint Commission International (JCI), existe muita preocupação com a segurança do ambiente em que o paciente está, se há porta corta fogo, mas é preciso reconhecer também o papel dos sistemas. A Healthcare Information and Management Systems Society (HIMSS) reconheceu que segurança virtual é necessariamente uma parte integrante da acreditação. Por isso, os hospitais que almejam a acreditação da HIMSS são capazes de demonstrar muito antes como estão lidando com essas questões.

 

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