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Após incidentes em saúde, comunicação aberta com pacientes e familiares reduz impactos negativos

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O erro assistencial gera danos emocionais a todos os envolvidos e a forma como as equipes de saúde apresentam a situação aos pacientes e seus familiares tem impacto direto no prolongamento do sofrimento das vítimas. É o que sugere um estudo (1) conduzido recentemente nos Estados Unidos, nação onde aproximadamente 25% da população relata ter tido alguma experiência com incidentes negativos em saúde nos últimos cinco anos.

A pesquisa analisou três cenários distintos: norte-americanos que vivenciaram algum erro assistencial nos últimos 12 meses; aqueles que enfrentaram a situação entre 1 e 2 anos atrás; e os que passaram por esse cenário há mais tempo, de 3 a 6 anos atrás. Assim, foram realizadas diferentes entrevistas para entender qual foi o incidente, quais os danos imediatos por ele causados, como foi a abordagem das equipes de saúde envolvidas e como os pacientes estavam se sentindo após determinado tempo do ocorrido.

Ao todo, 253 pessoas participaram do estudo, sendo que 60% afirmaram ter sido a vítima ou ter vivenciado um erro assistencial, ou com o cônjuge ou com um filho.

Dos erros relatados por esses 253 participantes, 11% resultaram em morte e 32% ocasionaram problemas significativos na saúde física do paciente em questão. Além disso, 87% dos respondentes confirmaram ter sofrido ao menos um impacto emocional como, por exemplo, sensação de terem sido traídos pelo médico ou sentimento de raiva.

Os pesquisadores também questionaram como foi a abordagem das equipes de saúde na hora de relatar o erro, sendo que as perguntas se basearam em seis critérios principais: reconhecer o erro; comunicar com sinceridade o ocorrido; falar de forma fácil de ser entendida; transmitir com clareza as consequências daquele incidente para a saúde do paciente; estar aberto para responder todas as dúvidas; e permitir a expressão de sentimentos por parte dos pacientes e familiares.

Infelizmente, a ação menos reportada pelos entrevistados, com apenas 29% de menções, foi o reconhecimento do erro em si por parte dos profissionais de saúde envolvidos no caso. Por outro lado, 46% dos participantes do estudo que vivenciaram erros assistenciais recentemente disseram que houve abertura para que eles fizessem todos os questionamentos necessários. Além disso, 31% disseram ter recebido todas as informações sobre o impacto do incidente na saúde do paciente; 34% declararam que a equipe falou abertamente sobre o ocorrido; e 39% disseram que os profissionais se comunicaram de forma fácil de ser compreendida e que tiveram a possibilidade de externalizar seus sentimentos.

Com esses dados, as respostas foram categorizadas: 34% dos respondentes disseram não ter recebido nenhuma comunicação sobre o erro assistencial; 31% receberam até dois critérios da comunicação aberta; 12% receberam entre três e quatro critérios; e 24% afirmaram ter recebido um suporte adequado da equipe de saúde envolvendo de cinco a seis critérios da comunicação aberta.

A fim de fazer a correlação entre a abordagem das equipes de saúde e as consequências ainda vividas pelas vítimas mesmo após anos do ocorrido, os pesquisadores questionaram os participantes como eles se sentiam quanto ao incidente passado.

Entre os pacientes que vivenciaram o erro nos últimos 12 meses à pesquisa, 74% relatam sentir ainda ao menos um impacto emocional, sendo o mais prevalente deles (com 44% de menções), o sentimento de raiva. Pensando em cuidados com a saúde, 50% dessas vítimas afirmaram ainda evitar os médicos envolvidos no caso; 45% disseram evitar as instituições envolvidas e relataram evitar cuidados com a saúde de forma generalizada; e 67% disseram ter perdido a confiança no sistema de saúde como um todo.

Analisando as vítimas que vivenciaram o erro assistencial entre três e seis anos passados, 51% ainda relataram sofrer algum impacto emocional, uma porcentagem consideravelmente alta. Quanto aos cuidados com a saúde, os dados não são tão diferentes do outro grupo: 57% afirmaram ainda evitar profissionais e serviços envolvidos; 37% comentaram seguir evitando novos cuidados com a saúde; e 67% alegaram ter perdido a confiança nos atendimentos.

Importante enfatizar que o estudo traz algumas questões socioeconômicas relevantes como, por exemplo, o fato de que as mulheres se mostraram mais propensas a relatar danos de longo prazo; as pessoas com ensino superior apresentam mais relatos de depressão; os entrevistados de baixa renda apontaram mais ansiedade e sentimento de abandono; e os participantes com grau de escolaridade e renda mais baixos parecem mais suscetíveis a evitar cuidados médicos após vivenciar um incidente assistencial.

Por fim, o estudo faz a relação entre a abordagem de comunicação da equipe de saúde e os danos de longo prazo relatados pelas vítimas e conclui que uma comunicação aberta está relacionada a níveis mais baixos de impactos emocionais e reduz as chances desses cidadãos evitarem tanto os profissionais quanto as unidades de saúde envolvidas no erro.

Entre os respondentes que declararam não ter recebido nenhuma comunicação eficiente sobre o erro por parte dos profissionais envolvidos no atendimento, 52% apontaram ao menos um desgaste emocional persistente como raiva, tristeza, depressão e sensação de abandono. Já entre aqueles que tiveram um amplo suporte da equipe e contaram com cinco ou seis critérios da comunicação aberta no relato do incidente, a prevalência foi de apenas 10%.

Falando sobre prevenção e cuidados gerais com a saúde, 80% dos participantes que não tiveram o suporte das equipes disseram seguir evitando tanto os médicos quanto as instituições. Entre os que receberam a comunicação adequada, esse percentual não ultrapassou 30%.

Interessante observar que apesar de a comunicação aberta ter se mostrado extremamente eficaz para reduzir danos persistentes, alguns fatores parecem não ser impactados por essa adesão. Os níveis de ansiedade nos pacientes e em seus familiares, por exemplo, permanecem altos independentemente da comunicação aplicada. Além disso, o estudo não faz nenhuma relação entre a exposição à comunicação aberta e o fato de as vítimas passarem a evitar cuidados médicos ou mesmo perder a confiança no sistema integral de saúde.

Outro estudo (2), dessa vez realizado no Brasil, traz alguns depoimentos de pacientes que se dizem traumatizados após erros assistenciais e reforça que a falta de informação, de diálogo e de acolhimento por parte da equipe e do serviço são pontos bastante mencionados pelas vítimas e responsáveis por um aumento do sofrimento psíquico de quem se vê vivenciando um erro assistencial. Além disso, a publicação menciona que serviços de apoio a indivíduos que passam por situações de estresse ou traumas são fundamentais para que as vítimas de erros assistenciais consigam enfrentar a vida de forma menos negativa. Uma das formas de apoio é, sem dúvidas, através de terapia psicológica, porém não se sabe se há algum método de escolha para esta abordagem.

Referências:

(1) Association of open communication and the emotional and behavioural impact of medical error on patients and families: state-wide crosssectional survey

(2) Nuances e desafios do erro médico no Brasil: as vítimas e seus olhares

#saudemental

 

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