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Clostridium difficile: atendimento, sem internação, também expõe à infecção

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Análise de bactérias em laboratório: exposição a serviços de saúde aumenta risco de infecção por Clostridium difficile (NikolayAsasis/Bigstock)
Análise de bactérias em laboratório: exposição a serviços de saúde aumenta risco de infecção por Clostridium difficile. As causas são prescrição inadequada de antibiótico e medidas de higiene ineficazes (NikolayAsasis/Bigstock)

Marcela Buscato

A NOVIDADE – Pesquisadores do Centro de Controle de Doenças do governo americano, o CDC, mostraram em um novo estudo como a simples passagem por um serviço de saúde – ainda que sem internação – predispõe os pacientes a efeitos adversos. Eles compararam a história de 226 pessoas que apresentavam infecção pela bactéria Clostridium difficile – responsável por parte importante das condições decorrentes de hospitalizações, como inflamações intestinais – aos de outras 226 que não tinham a bactéria (1). Entre os voluntários com histórico de infecção, 82,1% tinham feito consultas médicas ou com dentistas nos três meses anteriores. No grupo sem infecção, 60% haviam recebido cuidados de saúde recentemente.

A prescrição de antibióticos para uso domiciliar também foi associado à infecção por Clostridium difficil e ao desenvolvimento de sintomas, como diarreia, dores abdominais, náusea e febre: 62,2% das pessoas haviam usado antibióticos em casa. O dado explica porque apenas a passagem por consultas aumenta o risco de infecção pela bactéria.  O verdadeiro vilão é a prescrição inadequada de antibióticos. No grupo sem a bactéria, apenas 10,3% haviam recebido receitas para esse tipo de medicamento.

Os pronto-socorros também apareceram como locais de risco: 11,2% daqueles que desenvolveram sintomas, apesar de não terem recebido prescrição de antibióticos, haviam ido a um departamento de emergência nos 12 meses anteriores. No grupo sem a bactéria, apenas 1,4% foi ao PS no mesmo período. Neste caso, os pesquisadores suspeitam que as causas são medidas ineficazes de higiene. “Talvez um dos fatores que que influenciam nas emergências seja o alto volume e circulação de pacientes“,afirma uma das autoras do estudo em entrevista ao IBSP, a pesquisadora Alice Guh, do Centro de Promoção de Qualidade dos Cuidados com a Saúde do CDC, em Atlanta (EUA). “Esses fatores limitam a capacidade dos responsáveis pela limpeza de executar a higiene e a desinfecção do ambiente de maneira adequada entre pacientes.”

O CONTEXTO – Com o crescente uso inadequado de antibioticoterapia, a infecção pela bactéria Clostridium difficile, identificada em 1935, tornou-se um dos principais eventos adversos decorrentes de cuidados com a saúde. O uso de antibióticos aumenta entre cinco e sete vezes o risco (2). Presente naturalmente na biota intestinal de parte da população sem provocar sintomas, o bacilo pode causar complicações intestinais no caso de um desequilíbrio causado por antibióticos, e até significar risco de vida para pessoas fragilizadas. Estima-se que 80% dos afetados têm mais 65 anos. O quadro pode se restringir a diarreia, dores e febres, mas tem potencial para evoluir para inflamações intestinais graves, como a colite pseudomembranosa.

Estimativas do CDC sugerem que o Clostridium difficile seja a causa de 500 mil complicações intestinais importantes anualmente – 15 mil resultam na morte do paciente. O impacto econômico do tratamento chega a US$ 3.669 por paciente (2). Ambientes hospitalares são uma fonte importante de transmissão, já que a bactéria resiste no ambiente na forma de esporos: 20% dos pacientes internados têm a bactéria, enquanto na população a prevalência é de 4% (3). Os casos de diarréia e colite adquiridos fora do ambiente hospitalar estão aumentando. Segundo dados do CDC, em 2014, as infecções adquiridas sem hospitalização representavam 41% dos casos (4). Em 2011, estimava-se que eram 35% (5).

A PRÁTICA – O novo estudo reforça a importância de medidas de higiene nos serviços de saúde, como a lavagem adequada e frequente das mãos. Além disso, os profissionais devem usar luvas e aventais, descartados após o contato com o paciente infectado.

As unidades de emergência devem redobrar os cuidados, já que aparecem como locais de risco. “Os esporos de Clostridium difficile podem ficar nos móveis, nos leitos, e nem todos os produtos de limpeza conseguem matá-los”, afirma o intensivista Moacyr Silva Júnior, presidente do serviço de controle de infecções do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. São necessários desinfetantes com cloro para matar os esporos.

Uma revisão sistemática (6) publicada pela Revista da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP), em 2015, analisou 14 estudos que testavam a eficácia de diferentes produtos no combate a agentes associados a infecções em serviços de saúde. A substância que apresentou melhor desempenho foi o hipoclorito de sódio, comparado à clorohexidina e ao peróxido de hidrogênio. “O hipoclorito apresentou ação superior ou equivalência à maioria dos outros produtos, com ampla ação microbicida, inclusive esporos, e ação progressiva conforme maior tempo de exposição e de concentração”, escreveram os autores da análise. Eles ressaltam que, apesar da eficácia do hipoclorito, faltam estudos para verificar se ela se traduz diretamente na diminuição de infecções nos serviços de saúde.

Outra estratégia imprescindível para o combate às infecções pelo Clostridium difficile é a prescrição adequada de antibióticos, não só para os pacientes hospitalizados, mas também para os que são tratados em casa. “A medicação como fator de risco primário para os casos comunitários de infecção por Clostridium difficile indica a necessidade crítica de promover um stewardship para pacientes cuidados em casa”, afirma Guh, do CDC. No estudo  americano, 31% dos pacientes haviam tomado antibiótico para tratar sinusite e outros problemas respiratórios que, na maior parte dos casos, são causados por vírus e dispensam esse tipo de medicamento. Os antibióticos mais associados a complicações foram inibidores das beta-lactamases (17,8%), clindamicina (12,4%), fluoroquinolonas (10,7%), e cefalosporinas (7,6%).

 

SAIBA MAIS

(1) Guh, Alice Y et al. Risk Factors for Community-Associated Clostridium DifficileInfection in Adults: A Case-Control Study. Open Forum Infectious Diseases4.4 (2017): ofx171. PMC. Web. 14 June 2018.

(2) Silva Júnior, Moacyr. Recentes mudanças da infecção por Clostridium difficile. Einstein. 2012;10(1):105-9.

(3) Dubberke ER, Gerding DN, Classen D, Arias KM, Podgorny K, Anderson DJ, et al. Strategies to prevent clostridium difficile infections in acute care hospitals. Infect Control Hosp Epidemiol. 2008;29 Suppl 1:S81-92.

(4) Centers for Disease Control and Prevention, Emerging Infections Program. Technical information – Clostridium difficile tracking

(5) Lessa FC, Mu Y, Bamberg WM, et al. Burden of Clostridium difficile infection in the United States. N Engl J Med. 2015;372(9):825–34.

(6) Pereira, Samantha Storer Pesani, Oliveira, Hadelândia Milon de, Turrini, Ruth Natalia Teresa, & Lacerda, Rúbia Aparecida. (2015). Desinfecção com hipoclorito de sódio em superfícies ambientais hospitalares na redução de contaminação e prevenção de infecção: revisão sistemática. Revista da Escola de Enfermagem da USP, 49(4), 0681-0688. 

 

 

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