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Cuidado apropriado é centro da filosofia Slow Medicine

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O conceito de medicina sem pressa do Slow Medicine corre por fora da corrente, optando pelo uso ponderado da tecnologia diagnóstica e terapêutica, e se colocando como uma alternativa para a racionalização da prática médica

O atual cenário da saúde prioriza o overdiagnosis e o uso excessivo de medicamentos. Diante desse cenário de excesso de exames e remédios, uma das tendências globais que vai contra este princípio é a filosofia da Slow Medicine, focada em oferecer o cuidado apropriado ao paciente. Ou seja, nem mais, nem menos.

“O cenário atual induz ao overdiagnosis e uso excessivo não só de medicamentos como também de tecnologia diagnóstica e de procedimentos terapêuticos. Nesse sentido a Slow Medicine corre por fora da corrente (mainstream), optando pelo uso ponderado da tecnologia diagnóstica e terapêutica, e se colocando como uma alternativa para a racionalização da prática médica”, diz José Carlos Campos Velho, médico especialista em geriatria e clínica médica e Representante do movimento Slow Medicine Brasil.

Alguns dos princípios fundamentais do Slow Medicine são a valorização do tempo e do relacionamento médico-paciente, levando em consideração a singularidade do cuidado individual. Segundo o Dr. José Carlos, a ideia é conhecer melhor o paciente e o cuidado apropriado (“Right Care“), ou seja, aquele que se centra na preservação da qualidade de vida da pessoa, tanto do ponto de vista de medidas preventivas, como do ponto de vista terapêutico.

“Esta postura questiona a medicalização do cotidiano, devolvendo à vida o seu valor intrínseco e optando por um cuidado humanizado, centrado na pessoa, em sua família e em sua comunidade, respeitando seus valores, preferências e expectativas”, afirma Dr. José Carlos. Neste sentido, a Slow Medicine propõe uma mudança de paradigma em relação à tendência atual, caracterizada pelo uso abusivo e pouco cauteloso da tecnologia, que leva às situações corriqueiras de overdiagnosis e overtreatment.

Confira a seguir a entrevista exclusiva do Dr. José Carlos Campos Velho ao Portal IBSP

José Carlos Campos Velho

IBSP – Uma medicina mais lenta e atenta às necessidades individuais de cada paciente, que priorize o diagnóstico clínico – e não os exames – e a prevenção em vez da medicação faz parte dos princípios do Slow Medicine Brasil. Para o senhor que é especialista em geriatria, quais as vantagens de se tratar idosos permeando o conceito da “medicina sem pressa”?
José Carlos – O Dr. Dennis McCullough, geriatra e médico de família americano, falecido em 2016, autor de My Mother Your Mother (ainda sem tradução em português), era um defensor de uma abordagem desacelerada dos problemas enfrentados pelos idosos. Deixou um enorme legado, ainda a ser explorado pelas pessoas que lidam cotidianamente com a problemática da velhice. Um aspecto que ele salientava é da utilização judiciosa dos fármacos em idosos, tendo em vista a frequência com que são acometidos por múltiplas comorbidades e da necessidade da utilização de vários medicamentos, com um risco maior de reações adversas e interações medicamentosas. Ele sublinhava a necessidade da ponderação em relação à prescrição de fármacos aos idosos, buscando uma prescrição enxuta, na qual os medicamentos fossem usados uma vez que fossem estabelecidos diagnósticos mais precisos e em doses adequadas.

IBSP – E como deve ser o cuidado de fim de vida dentro do conceito da ‘medicina sem pressa’?
José Carlos – McCullough também interrogava o uso de fármacos com presumidas finalidades preventivas, particularmente em pacientes em extremos etários, frágeis ou em final de vida (um exemplo é o uso de estatinas em prevenção primária nestes pacientes). Voltou seu olhar para os cuidados na finitude, onde a aliança do médico com o paciente, sua família e o seu círculo de cuidadores – profissionais ou informais – pode fazer toda a diferença. Essa estratégia permitiria uma maior qualidade de cuidados e um enfrentamento menos traumático das situações que inexoravelmente surgem à medida que a saúde se deteriora e a dependência avança. Posso afirmar que a geriatria é, em particular, uma das especialidades que mais se beneficiam deste olhar e desta abordagem humana e compassiva, delineada pelos princípios da Slow Medicine.

IBSP – Os movimentos como o Outubro Rosa, voltado à prevenção do câncer de mama, e o Novembro Azul, que incentiva o diagnóstico precoce de câncer de próstata, preconizam o rastreamento do câncer anualmente. É excesso de marketing ou realmente ajuda a detectar tumores iniciais, reduzindo a taxa de mortalidade associada a esses cânceres?
José Carlos – No decorrer de 2016 houve uma polêmica que foi levantada por uma reportagem jornalística, com grande repercussão na mídia, colocando a Slow Medicine como contrária a este tipo de iniciativa. Não somos contrários às campanhas de educação e conscientização como as citadas, que visam esclarecer a população sobre qualquer doença. Contudo, é preciso ser cuidadoso na transmissão de informações à população sobre doenças que possam vir a acometê-la e, neste sentido, cabe crítica a estes movimentos. É importante lembrar que tais iniciativas são levadas a cabo pela iniciativa privada, e não se configuram como programas de saúde pública, não havendo apoio de instituições como o INCA.

IBSP – Essas campanhas podem levar ao overdiagnosis e ao overtreatment?
José Carlos – Um dos princípios da Slow Medicine é que o cuidado seja individualizado, levando em consideração o indivíduo como um todo e que as decisões sejam compartilhadas e conscientes. A forma como tais campanhas têm sido conduzidas podem contribuir para levar às situações de overdiagnosis e overtreatment, conforme explicamos anteriormente. É esta ponderação que gostaríamos de fazer. O grupo italiano de Slow Medicine tem uma iniciativa chamada “Coltiviamo la Salute”, na qual a questão das estratégias de prevenção busca transcender a mera realização de exames e prescrição de medicamentos, apontando para a ideia de uma prevenção mais holística e abrangente, focada particularmente na educação em relação aos hábitos saudáveis e intervenções como a vacinação, por exemplo, cujas evidências sobre eficácia são muito claras. .

IBSP – O que o sistema de saúde em geral tem a ganhar com o Slow Medicine?
José Carlos – A Slow Medicine não se coloca como uma alternativa de redução de custos para a saúde, este não é o seu foco, mas está voltada particularmente para a qualidade da assistência prestada ao paciente. Porém, acreditamos que a racionalização do uso da tecnologia através da individualização do cuidado, sem perder de vista as melhores evidências científicas, possa trazer um impacto positivo nos custos da assistência médica. O que afirmamos é que as instituições de assistência à saúde podem auferir, a partir da implantação destes princípios, é a concretização do processo de humanização da assistência médica, como nos salienta o Manifesto da Slow Medicine: uma Medicina Sóbria – na qual fazer mais não significa fazer melhor; Respeitosa – em que os valores e as expectativas dos pacientes são considerados; e Justa – que propõe um amplo acesso a serviços de saúde de qualidade.”

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