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Desastres em unidades hospitalares – É preciso gerenciar os riscos não-clínicos

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Ao abordar a temática da segurança do paciente no contexto hospitalar, não basta dedicar esforços aos cuidados assistenciais, garantindo um atendimento seguro e de excelência. Existem diversas outras áreas que precisam de atenção, o que envolve o gerenciamento de riscos não-clínicos, em especial aqueles que afetam a estrutura hospitalar. Para tanto é necessário ter planos de prevenção para incêndios, inundações, quedas de energia, danos estruturais, falhas de tecnologia e, até mesmo, ataques cibernéticos.

No Brasil, as unidades hospitalares devem seguir normativas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como a RDC 2/2010 (1), que trata do gerenciamento de tecnologias em saúde; e a RDC 63/2011 (2), que dispõe sobre os requisitos de boas práticas de funcionamento para os serviços de saúde; e normas da ABNT como a NBR 15.943/2011 (3) que traz diretrizes para programas de gerenciamento de equipamentos e infraestrutura em saúde.

Mesmo com a normatização, de acordo com relatório (4) do Instituto Sprinkler – organização sem fins lucrativos que atua pela prevenção e combate a incêndios em instalações industriais e comerciais – houve aumento considerável no registro de incêndios estruturais durante o ano de 2020. Ao monitorar as notícias divulgadas pela mídia no país, o documento identificou 1.244 ocorrências de incêndios durante o ano passado, o que representa aumento de 43,7% no comparativo com 2019. Eles definem como incêndios estruturais aqueles que ocorrem em hospitais, depósitos, escolas, prédios públicos e museus e, como os dados não são computados diretamente pelo Corpo de Bombeiros, há subnotificação.

Mas, de fato, nos últimos meses foram várias as notícias de incêndios em hospitais brasileiros. No Rio de Janeiro, o desastre ocorrido no Hospital Federal de Bonsucesso resultou na morte de cinco pacientes em outubro de 2020. Em São Paulo, há alguns meses, incêndios atingiram o Hospital da Luz e o prédio do Hospital Pérola Byington, felizmente ambos sem vítimas. Com essas notícias mais frequentes, levantou-se o questionamento sobre quais são as ações necessárias para evitar esse tipo de acontecimento.

Publicada em setembro deste ano, uma revisão narrativa internacional (5) traz uma série de casos de desastres que afetam os departamentos de emergência colocando pacientes, familiares e funcionários em risco. Lembrando que hospitais são locais naturalmente perigosos por abrigarem gases inflamáveis, substâncias tóxicas, materiais biológicos e radioativos – além de pessoas em situação de maior vulnerabilidade – o estudo aponta que a probabilidade anual de ocorrer um incidente deste tipo nos hospitais norte-americanos chega a 31%.

Um dos casos relatados pelo estudo foi o de um incêndio interno em um hospital comunitário com 290 leitos e um pronto-socorro aberto 24 horas por dia. Na ocasião, o desastre foi iniciado por um paciente da ala psiquiátrica que erroneamente foi avaliado como sem intenção suicida e, na sequência, seguiu para internação na emergência. Poucas horas depois, ateou fogo no colchão e em suas roupas. Como a equipe de enfermagem tinha acesso visual direto ao quarto do paciente, o incêndio foi rapidamente identificado e contido e o socorro prestado. Porém, devido à fumaça gerada, o departamento de emergência teve de ser evacuado.

Mesmo estando no andar superior, as salas de cirurgia também tiveram de ser esvaziadas, pois a fumaça fez disparar os alarmes. Para retomar as atividades com a maior agilidade possível, houve uma readequação e outros ambientes como o pronto-socorro de cardiologia e a UTI passaram a ser utilizados como local para avaliação e reanimação de pacientes instáveis. Isso mostra que mesmo o incêndio ficando restrito a apenas um dos quartos da ala de internação, os impactos afetaram muitas das outras áreas hospitalares.

Após observar este e outros casos de incidentes nos hospitais, a revisão reforça que esses acontecimentos têm causas multifacetadas, porém normalmente são resultado de uma sequência de eventos falhos (como podemos notar no caso relatado do paciente que acabou internado na emergência sem controle psiquiátrico).

Reforça, também, que embora seja impossível estar totalmente preparado para crises deste tipo, é imprescindível conhecer os tipos mais frequentes de desastres para promover ações preventivas. Além disso, é importante observar as características estruturais do hospital, pois esses detalhes, bem como sua localização, podem determinar a priorização de cuidados preventivos.

No Reino Unido, por exemplo, entre 1994 e 2004 foram identificados 10.662 incêndios em hospitais, o que levou à evacuação de quase 5 mil pacientes e resultou em 17 mortes e 651 feridos. Por lá, a maioria dos relatórios mostra que esses incêndios estão concentrados nas UTIs e nas salas de cirurgia, locais que abrigam gases inflamáveis que podem contribuir para o risco de explosões.

No Brasil, ainda segundo o Instituto Sprinkler, uma das principais causas dos incêndios hospitalares está na falta de manutenção, principalmente nos prédios mais antigos onde os sistemas elétricos precisam de reformas para modernização capaz de atender às necessidades dos novos equipamentos que chegam.

Outros desastres possíveis

Desastres internos: além dos incêndios, outros tipos de desastres internos podem ocorrer como falta de energia, falta de água, vazamentos de água, falta de rede de gases, falhas de tecnologia e nos sistemas de informação, e atos violentos como tiroteios.

Desastres naturais: privilegiado, o Brasil sofre pouco com desastres naturais, sendo atingido principalmente por enchentes em decorrência de falhas nos sistemas de drenagem de águas pluviais ou cheias de rios. Porém, em outros países, terremotos, furacões e até mesmo nevascas podem prejudicar o atendimento hospitalar. Além disso, também é considerado desastre natural o surto de doenças infecciosas como o que ainda estamos vivenciando com a pandemia de covid-19.

Desastres provocados pelo homem: o homem também pode ser o causador de desastres hospitalares como os gerados por incidentes nucleares e de radiação, guerras e ataques terroristas.

Referências:

(1) RESOLUÇÃO Nº 2, DE 25 DE JANEIRO DE 2010 – Dispõe sobre o gerenciamento de tecnologias em saúde em estabelecimentos de saúde.

(2) RESOLUÇÃO-RDC Nº 63, DE 25 DE NOVEMBRO DE 2011 – Dispõe sobre os Requisitos de Boas Práticas de Funcionamento para os Serviços de Saúde

(3) ABNT NBR 15943:2011 – Diretrizes para um programa de gerenciamento de equipamentos de infraestrutura de serviços de saúde e de equipamentos para a saúde

(4) Notícias de incêndios estruturais aumentam 43,7% em 2020

(5) When disasters strike the emergency department: a case series and narrative review

 

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