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Desigualdade e racismo afetam pacientes e profissionais de saúde

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Os sistemas de saúde de todo o mundo ainda precisam batalhar para que o acesso aos atendimentos seja, de fato, igualitário. No Brasil, país continental com mais de 210 milhões de habitantes, a desigualdade é gritante. Com a pandemia de COVID-19, essa disparidade tornou-se ainda mais relevante. No estado de São Paulo, por exemplo, durante o ano de 2020, o aumento da mortalidade entre os negros foi de 25,1% enquanto, entre os brancos, foi de 11,5% (1).

Os dados são de uma pesquisa realizada pela Vital Strategies em parceria com o Afro-Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e reforçam a necessidade de o país medir essas iniquidades para então investir em políticas públicas que protejam os mais vulneráveis.

Por mais que saibamos que o Brasil é reconhecido por essa desigualdade intensificada por sua dimensão territorial, o cenário se repete globalmente e foi dissecado por uma pesquisa (2) realizada em novembro de 2020 pelo NEJM Catalyst Insight Council, grupo de executivos, líderes clínicos e médicos que atuam na prestação de cuidados de saúde em todo o mundo. O estudo aponta, como necessidade emergencial, o investimento em equidade dos sistemas de saúde, o que envolve tanto questões de disparidade socioeconômicas quanto preconceito racial.

Segundo Lisa Cooper, conselheira do projeto e professora da disciplina de equidade em saúde na Escola de Medicina da Universidade John Hopkins, o tema precisa ser abordado em todas as fases, sendo necessário que comece a ser debatido ainda na faculdade para que os futuros médicos naturalizem a proposta de consultar seus colegas para mais do que questões relativas a diagnóstico e planos de tratamento, que também se sintam confortáveis para trocar ideias sobre como se envolver mais com pacientes de realidades socioeconômicas e etnias diferentes das suas. Para Cooper, um relacionamento mais forte com o paciente, também aumenta a adesão aos tratamentos e melhora os desfechos clínicos.

A conselheira relata que os médicos muitas vezes não percebem que estão estereotipando os pacientes ou fazendo suposições sem ter consciência plena dos desafios inerentes às condições sociais daqueles cidadãos. Como exemplo, diz que um médico pode deixar de ensinar um paciente com asma recém diagnosticada a usar o inalador por pressupor que ele conseguirá ler as instruções.

Considerando que, para melhorar cenários de saúde é preciso ter indicadores confiáveis, nota-se que a desigualdade não está sendo priorizada. Segundo a pesquisa, apenas 29% dos membros do conselho afirmaram ter programas de monitoramento de desempenho clínico focados na identificação de disparidades de saúde. Mesmo cientes de que esse parece ser o melhor caminho para melhoria, as instituições ainda não coletam esses dados para, então, gerar feedbacks.

Racismo e desigualdade não se mantêm prejudiciais somente aos pacientes. Também afetam negativamente a interlocução entre os times de profissionais da saúde. Para sanar essa discrepância que gera desconforto e desavenças, as instituições investem em treinamentos sobre preconceito racial, determinantes sociais de saúde e antirracismo.

Porém, por vezes, o tema permanece anexo somente à teoria, não evolui para a prática. A própria organização interna dessas instituições indica se há ou não necessidade de melhorias. Basta analisar a cultura interna de diversidade, inclusão e equidade, visto que os valores de uma organização estão refletidos na forma como são escolhidos os profissionais que assumem posições de liderança e na forma como os funcionários e pacientes de diferentes origens são acolhidos e tratados no dia a dia. O que Cooper diz é que não adianta investir em treinamentos para combater desigualdades se, na prática, essa busca por equidade for inexistente.

Alguns depoimentos de participantes do estudo refletem necessidades de melhorias observadas no Brasil. Um vice-presidente de um sistema de saúde sem fins lucrativos reforçou que as faculdades de medicina precisam de mais diversidade para formar profissionais capazes de representar uma maior parcela da população.

É exatamente o que pode ser percebido ao analisar a demografia médica brasileira. Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) em 2018 mostrou que a maioria dos recém graduados em medicina no Brasil é branca e tem renda familiar elevada (3). Enquanto 77,2% dos entrevistados se autodeclararam brancos, apenas 1,8% se declararam negros e 16,2%, pardos.

Foram entrevistados 553 executivos de saúde, líderes clínicos e médicos sobre a igualdade no sistema. Confira alguns dos relevantes dados destacados pela pesquisa do NEJM:

  • 59% disseram que os pacientes foram impactados por disparidades na prestação de cuidados em suas instituições
  • 50% acreditam que o controle de doenças crônicas está entre as principais áreas afetadas pela desigualdade
  • 59% dos entrevistados afirmaram que suas organizações investem em programas para melhorar a equidade do atendimento
  • 47% confirmam que a pandemia de COVID-19 tornou ainda mais difícil garantir atendimento igualitário para todos os pacientes; 42% acreditam que não houve mudança durante a crise
  • 52% indicaram que a pandemia de COVID-19 não piorou a qualidade do atendimento prestado por suas instituições, 38% disseram que houve piora
  • 48% disseram que o racismo interpessoal impacta de forma considerável à extrema os profissionais que atuam em suas organizações
  • 24% disseram que suas instituições não oferecem treinamentos específicos para que as equipes aprendam a lidar com racismo interpessoal e igualdade na saúde
  • 27% declararam que os treinamentos organizacionais são efetivos
  • 50% acreditam que os modelos de remuneração (como o fee-for-service) não estimulam um atendimento mais igualitário
  • 56% acreditam que as faculdades de medicina devem investir em disciplinas focadas na redução das disparidades em saúde

Referências:

(1) Disparidades raciais no excesso de mortalidade em tempos de Covid-19 em São Paulo

(2) Health Inequity and Racism Affects Patients and Health Care Workers Alike

(3) Demografia Médica no Brasil – 2018

#saudemental

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