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Dupla checagem – Barreira eficaz para erros de medicação?

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A dupla checagem na administração de medicamentos tem sido um paradigma no contexto da segurança do paciente. Prática padrão, especialmente em fármacos de alto risco, a ação vem sendo discutida internacionalmente. Uma revisão sistemática (1) conduzida na Austrália e publicada em 2019 questiona a eficácia da dupla checagem e sugere a necessidade de mais estudos de qualidade para essa avaliação.

Utilizando 13 estudos publicados em cinco reconhecidos bancos de dados científicos, a revisão envolveu avaliações de pacientes adultos e pediátricos internados em unidades hospitalares e sugere que apenas um deles mostrou uma associação significativa entre dupla checagem e redução dos erros de administração medicamentosa. Aponta, também, que um estudo não mostrou nenhuma associação; que nenhum deles investigou mudanças nos danos aos pacientes relacionadas à dupla checagem; e que as taxas de adesão à medida variaram de 52% a 97%.

Conclui, assim, que não há evidências suficientes de que a dupla checagem está associada a menores taxas de erros em administração de medicamentos e sugere a necessidade de estudos de alta qualidade para determinar em que contexto a dupla checagem pode trazer benefícios significativos à segurança do paciente.

Para a revisão, houve uma dificuldade inicial em encontrar artigos científicos que, de fato, fizessem a associação entre a dupla checagem e menores taxas de erros. Inicialmente foram selecionados 983 documentos (estudos em outros idiomas não foram envolvidos, o que pode trazer, também, um viés de publicação).

Após remoção de 165 duplicados, restaram 818 artigos exclusivos. Porém, desse montante, a maioria foi removida por não atender aos critérios de inclusão na revisão: para ser considerado, o artigo tinha que avaliar o uso e/ou a eficácia da dupla checagem, relatando associação entre a medida e os erros de administração de medicamentos; ou uma estimativa de efeito análoga ao dano ao paciente. Ou seja, dos quase mil documentos selecionados inicialmente, restaram apenas 13.

Desses 13 documentos avaliados, a revisão indica que apenas três eram de alta qualidade. Além disso, outros três tinham populações muito pequenas e cinco se basearam parcial ou totalmente no autorrelato para medir os erros de medicação, o que levaria a uma subavaliação das reais taxas de erro.

Com base em todos os vieses apresentados, a revisão sistemática questiona se a literatura tem, de fato, evidências convincentes sobre a eficácia da dupla checagem. Alerta que muitas vezes é difícil identificar a prevenção de erros raros e catastróficos, visto que os casos estão mais propensos a avaliar “quase incidentes”. Sugere, também, a necessidade da criação de ensaios robustos para medir a frequência e a gravidade dos erros evitados durante a dupla checagem, bem como quais seriam os resultados reais desses erros.

Como os estudos também não trazem, segundo detalhado na revisão, evidências quanto à consistência da dupla checagem, torna-se impossível, até o presente momento, determinar que a falta de associação entre o método e a redução dos erros se dá pela baixa adesão ou pela ineficácia da medida.

Segundo Lucas Zambon, diretor científico do IBSP, é preciso absorver alguns aprendizados com base nessa revisão sistemática. “O primeiro é que quando estamos criando soluções para segurança do paciente, não temos fenômenos de plausibilidade extrema, que independem de um ensaio clínico para comprovar sua eficácia – como no clássico exemplo onde não é necessário fazer um estudo para ver se alguém sobrevive sem usar um paraquedas ao saltar de um avião – portanto, criar evidências científicas na área de segurança do paciente é algo fundamental para evoluirmos”, comenta.

Além disso, o especialista reforça ser importante que as equipes tenham clareza sobre as práticas adotadas. “Como nesse exemplo da dupla-checagem, são ideias que intuitivamente parecem nos levar à diminuição de erros, porém, são ações de alta dependência do fator humano e, portanto, sujeitas a falhas de execução influenciadas pelo grau de atenção, memória, conhecimento, treinamento, estresse, pressões de trabalho entre tantos outros fenômenos”, explica. Segundo ele, isso não significa que a prática deve ser abandonada, mas sim que deve ser estudada mais a fundo, que as circunstâncias nas quais seu impacto pode ser maior devem ser analisadas, e a forma de execução também deve ser observada para que haja, de fato, um ganho real e não apenas presumido. “Ou, ainda, quem sabe, checar quais tecnologias poderiam ser adotadas para minimizar ou até eliminar o fator humano, potencializando os ganhos pretendidos”, finaliza Zambon.

Referências:

(1) Effectiveness of double checking to reduce medication administration errors: a systematic review

 

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