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Investir em conscientização é chave para gestão de risco nas terapias infusionais

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Mais do que trabalhar a reversão de danos ao paciente, as equipes hospitalares precisam dedicar esforços em reduzir os riscos durante todo o atendimento de saúde. Considerando que a terapia endovenosa e a punção para coleta de sangue são os procedimentos mais comuns realizados no mundo (1), evitar problemas diretamente relacionados à eles é uma das recomendações primordiais em instituições que prezam pela segurança do paciente, principalmente pelo acesso direto à corrente sanguínea amplificar o risco de infecções.

Quando as diretrizes não são seguidas à risca, o ambiente expõe o paciente a infecções. E, visto que vivemos em um cenário de aumento da resistência aos antimicrobianos, abrir caminhos para que infecções acometam as unidades é motivo de muita preocupação.

Segundo Daiane Cais, enfermeira que atua no controle de infecção há mais de 15 anos, evitar esses riscos é um desafio que precisa ser abraçado por todas as equipes envolvidas nos cuidados. “Independentemente do tipo de cateter venoso que utilizamos, as vias de contaminação para entrada de micro-organismos nos vasos são as mesmas, começando pelas mãos dos profissionais que devem estar sempre limpas tanto para inserção quanto para manutenção do dispositivo”, pontua.

Professora do curso “Melhores Práticas para Terapia Infusional” disponível na plataforma de EAD do IBSP, Daiane reforça que são diversos os fatores que podem levar bactérias para a corrente sanguínea dos pacientes, mas que a atenção e o cuidado das equipes são fundamentais. “Praticamente todos esses fatores dependem da assistência que prestamos e de nossas ações”, diz a especialista.

A higienização das mãos pelos profissionais de saúde é um grande desafio desde a década de 60. Segundo estudo realizado junto à uma unidade de terapia intensiva neonatal de Santos, litoral paulista, a técnica de lavagem das mãos raramente é adequada (2). Tanto que órgãos nacionais e internacionais seguem trabalhando campanhas de conscientização para melhorar essas estatísticas.

“Perdemos muitas oportunidades de tratar seguramente o paciente”, comenta Daiane lembrando que a OMS orienta que as mãos sejam higienizadas sempre antes do contato com pacientes, antes de qualquer procedimento, após contato com pacientes, após procedimentos com risco de exposição do profissional à fluidos corpóreos, e após o contato deste profissional com o mobiliário do ambiente próximo ao paciente. “Para ter uma higiene completa e segura, todos os passos precisam ser seguidos”, complementa.

>> Como um hospital aumentou a higienização das mãos usando uma tática militar

Contribuindo com essa campanha, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) por meio da Gerência de Vigilância e Monitoramento em Serviços de Saúde e da Gerência Geral de Tecnologia em Serviços de Saúde publicou, em agosto de 2018, a nota técnica nº 01/2018 (3) que traz orientações gerais para higiene das mãos.

O texto aborda a higiene das mãos como uma das principais estratégias para prevenção das infecções e visa orientar gestores e profissionais de saúde a promover as práticas de higienização das mãos trazendo, inclusive, definições sobre a escolha dos produtos.

Investir em educação também é chave para boa gestão de riscos

Segundo mencionado no Guidelines for the Prevention of Intravascular Catheter-Related Infections (4), publicação de 2011 disponibilizada pelo Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos para elencar algumas das principais diretrizes no uso de cateteres para terapias infusionais, o investimento em educação deve ser encarado como primordial para a melhor gestão de riscos durante estes procedimentos.

O material menciona, inclusive, que treinar as equipes sobre as indicações de uso dos cateteres intravenosos e sobre quais são os procedimentos adequados para inserção e manutenção destes dispositivos é algo extremamente recomendado com base em estudos experimentais, clínicos ou epidemiológicos, bem projetados. Além disso, incentiva a avaliação periódica destes conhecimentos.

Contribuindo para a troca de informações dentro deste contexto, a programação do III Seminário Internacional de Enfermagem para Segurança do Paciente traz uma palestra específica sobre Gerenciamento de Riscos Associados à Terapia Intravenosa.

Ministrada por Márcia Bezerra, enfermeira especialista em acesso vascular no Hospital Santa Catarina, em São Paulo, a palestra abordará como planejar a melhor escolha do acesso vascular.

Ter conhecimento para definir qual a melhor abordagem também é uma das recomendações contidas no Guidelines for the Prevention of Intravascular Catheter-Related Infections.

>> Inscrições abertas para III Seminário Internacional de Enfermagem para Segurança do Paciente

Onde definitivamente está o risco?

Além da falta de higienização das mãos por parte dos profissionais de saúde que inserem e manuseiam dispositivos para terapias infusionais, existem outras fontes de contaminação possíveis em procedimentos que utilizam cateteres, sendo as mais recorrentes:

– A colonização das conexões que ficam em contato direto com o meio externo e que se não forem desinfectadas antes do acionamento podem carregar para dentro do vaso do paciente micro-organismos presentes em sua superfície;

– A contaminação, durante o preparo das soluções, dos fluidos infundidos por conta da quebra de barreiras básicas como a contaminação do êmbolo e da agulha no momento da aspiração e a não desinfecção dos frascos e ampolas;

– Contaminação por meio da microbiota do próprio paciente quando não há a assepsia adequada da pele no momento da inserção do dispositivo ou pela falta de curativos corretos durante a manutenção dele;

– Disseminação hematogênica, secundária a outro processo infeccioso.

>> O que os hospitais estão fazendo para prevenção de infecção associada a cateter e dispositivos?

Infecções e cuidados nas unidades de terapia intensiva

Um estudo feito em 16 hospitais brasileiros ao longo de quase três anos analisou 2.563 casos de infecções, 49% deles ocorridos nas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) (5). E entre os potenciais fatores que predispõe os pacientes a infecções da corrente sanguínea estão os dispositivos intravasculares: cateteres venosos centrais estavam presentes em 70,3% dos pacientes; cateteres intravenosos periféricos foram utilizados em 24,7% dos casos; e cateteres arteriais em 2% das situações.

Em casos considerados complicados, a importância do planejamento é ainda maior. Outro estudo, dessa vez utilizando dados epidemiológicos da Espanha (6), concluiu que infecções sanguíneas relacionadas a cateteres aumentam significativamente a mortalidade de pacientes críticos, além de aumentar o tempo de permanência nas unidades de terapia intensiva. Todos esses apontamentos reforçam a necessidade do investimento no gerenciamento de riscos.

Referências:

(1) Responsabilidade civil dos profissionais de enfermagem nos procedimentos invasivos

(2) Adesão à técnica de lavagem de mãos em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal

(3) Nota Técnica Nº 01/2018 – Anvisa – Orientações Gerais para Higiene das Mãos em Serviços de Saúde

(4) Guidelines for the Prevention of Intravascular Catheter-Related Infections

(5) Nosocomial Bloodstream Infections in Brazilian Hospitals: Analysis of 2,563 Cases from a Prospective Nationwide Surveillance Study

(6) Morbidity and mortality associated with primary and catheter-related bloodstream infections in critically ill patients

 

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