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Na anestesiologia, a adesão tecnológica também depende de fatores humanos para gestão de riscos

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Com avanços tecnológicos, o processo anestésico vem se tornando muito mais seguro. No centro cirúrgico, por exemplo, a automação adentrou as etapas de aplicação, métodos de monitoramento do paciente tornaram-se menos invasivos e houve uma adesão a sistemas de suporte à decisão clínica, que hoje já são comuns (1).

Porém, independentemente dos avanços tecnológicos, é necessário considerar os fatores humanos. Os seres humanos não são tomadores de decisão perfeitos, como relata estudo intitulado Human Factors Applied to Perioperative Process Improvement. Eles estão sujeitos a uma variedade de fatores que podem prejudicar seu desempenho (2). Dessa forma, é natural que cada tecnologia lançada traga consigo uma nova sequência de complexidade e recursos que exigem treinamento, adaptação e, principalmente, atenção (3).

Para isso há um campo científico multidisciplinar chamado engenharia dos fatores humanos e que está integralmente dedicado à relação entre o homem e a tecnologia no ambiente de trabalho. O objetivo é tornar o sistema homem-máquina a cada dia mais seguro e confiável (2).

Adentrando especificamente no campo da anestesiologia, a automatização da entrega de anestésicos pode reduzir muitos dos riscos de falhas humanas durante a administração do fármaco, já que o equipamento pode intervir rapidamente, sem necessitar da interferência do usuário. Porém, ele só intervirá se tiver sido programado para tal.

Além disso, a programação do equipamento será feita por um profissional que precisa estar atento e permanecer controlando o dispositivo. Mesmo porque a segurança do procedimento anestésico depende das habilidades de vigilância e consciência situacional do médico anestesista para o monitoramento contínuo da tarefa, detecção de eventos e mudanças no ambiente (4).

No âmbito do monitoramento, a tecnologia permitiu processos muito menos invasivos para acompanhar em tempo real vários parâmetros como: hemodinâmica, oxigenação, ventilação, estado neurológico, débito urinário, temperatura central e grau de bloqueio neuromuscular. Antigamente, por exemplo, para monitorar o débito cardíaco do paciente, eram necessários cateteres invasivos. A realidade atual é bem diferente e o paciente pode ser monitorado apenas pela análise das ondas advindas da pressão arterial periférica.

Segundo estudo publicado na Revista Brasileira de Anestesiologia (6), com a chegada de novas bombas de infusão alvo controladas, o Brasil se alinhou à tendência mundial de automação desse processo, ganhando muitos benefícios para a gestão de risco. Essas bombas utilizam um software com princípios farmacocinéticos para permitir o cálculo da quantidade de medicamento acumulado nos tecidos do paciente, ajustando a taxa de infusão para que seja mantida uma concentração correta para a anestesia ideal.

Porém, até que se chegasse a um modelo correto para cada medicamento anestésico, permitindo a maior segurança, diversos estudos clínicos individualizados para cada fármaco foram realizados a fim de determinar os modelos farmacocinéticos que deveriam ser incorporados às bombas. Como exemplo, o modelo farmacocinético de Marsh-plasma, que utiliza o peso do paciente para definir os valores dos três compartimentos (V1, V2, V3) e pode usar como valor de constante de equilíbrio entre plasma e sítio efetor (KeO) 0,6. Esse KeO leva a uma maior segurança para a indução anestésica por evitar um bolus inicial muito alto para o paciente, reduzindo o risco de instabilidade hemodinâmica nesse processo. Além disso, o modelo de Marsh-plasma apresenta uma média de erro positiva, ou seja, a concentração plasmática real do anestésico normalmente é maior que a concentração mostrada pelo visor da bomba de infusão, o que reduz a chance do despertar intraoperatório (7).

Ainda assim, como em qualquer outro dispositivo tecnológico, é necessário estar atento as possíveis falhas. Quais os riscos que precisam ser considerados no uso das bombas de infusão alvo controladas? Segundo artigo de revisão intitulado The Safety of Target-Controlled Infusions (8), dois pontos merecem destaque:

  • Medicamento errado – Erros de medicação podem ocorrer em qualquer forma de administração. Nas bombas de infusão alvo controlada, pode haver a seleção equivocada do modelo farmacocinético. Selecionar, por exemplo, o modelo de propofol para administração de remifentanil ou vice-versa.
  • Variabilidade intra-sujeitos – Os modelos farmacocinéticos são válidos para populações específicas e a extrapolação para outras populações têm limitações.

Uma bomba de infusão alvo controlada que possa reduzir esses riscos seria de especial interesse para a maior segurança do paciente. A associação de uma bomba com reconhecimento da medicação e o uso de seringas pré-preenchidas com chip para permitir este reconhecimento, garantindo o medicamento correto, na concentração adequada, e o modelo farmacocinético apropriado para a droga, pode diminuir o risco de erro de medicação anestésica (5). Uma bomba que ofereça um modelo farmacocinético seguro e que pode ser utilizado por uma gama muito ampla de pacientes (de 16 até 100 anos e de 30 a 150 quilos) também é essencial para redução dos riscos (7).

São vários os fatores que precisam ser inseridos nos protocolos de anestesia para permitir que a incorporação tecnológica seja segura tanto para o profissional de saúde quanto para os pacientes e é impossível ignorar a relevância dos fatores humanos durante essa incorporação. Dessa forma, o uso de bombas de infusão alvo controladas é importante por serem equipamentos com diversos protocolos de segurança intrínsecos ao seu uso, diminuindo a influência de fatores humanos e, consequentemente, reduzindo a chance de ocorrer erros no procedimento anestésico.

** Essa matéria integra a série “Segurança na Anestesia e Sedação” que, patrocinada pela Aspen Pharma, traz uma sequência de conteúdos científicos sobre segurança do paciente crítico em uso de medicamentos de alto risco como os fármacos sedativos e anestésicos.

Referências:

(1) Recent advances in the technology of anesthesia

(2) Human Factors Applied to Perioperative Process Improvement

(3) The Challenges of Technological Intensification

(4) Human factors in preventing complications in anaesthesia: a systematic review

(5) Modelo de manual Terumo para bomba de seringa. Modelos TE-371 e TE-372.

(6) Anestesia venosa total em regime de infusão alvo-controlada: uma análise evolutiva 

(7) Pharmacokinetic model driven infusion of propofol in children

(8) The Safety of Target-Controlled Infusions

 

 

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