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Novos picos de COVID-19 e retomada de cirurgias eletivas – Riscos e estratégias de segurança

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Os números da pandemia no Brasil mostram que o país está vivenciando um novo pico de contaminação. Na primeira quinzena de fevereiro de 2021, foi registrado o maior número de mortes por COVID-19 em 24 horas desde julho de 2020. Na ocasião, 1.452 brasileiros faleceram em decorrência da infecção causada pelo novo coronavírus.

Esse cenário de aumento do número de casos e de óbitos surge justamente em um momento em que os sistemas de saúde precisam se estabilizar para atender tanto aos cidadãos infectados pela COVID-19 quanto ao alto número de cirurgias que foram represadas ao longo de toda a crise. Segundo estudo do periódico científico British Journal of Surgery, no mundo todo cerca de 28 milhões de cirurgias eletivas deixaram de ser feitas somente em 2020 (1).

Nos primeiros meses da pandemia, com as inúmeras incertezas a respeito da transmissão do patógeno, suas complicações, grupos de risco e melhores formas de prevenção, foi natural que todos os países agissem com maior precaução e, assim, não somente cirurgias, mas exames e outros procedimentos sem caráter emergencial tiveram recomendação de serem temporariamente paralisados.

Com o passar dos meses, as descobertas científicas e o preparo das instituições de saúde, muito se aprendeu para que esses serviços pudessem receber os pacientes de forma segura, garantindo o atendimento e evitando que a paralisação gerasse danos por diagnóstico tardio e demora na realização de procedimentos cirúrgicos.

Como forma de contribuir com as melhores práticas e diretrizes para um atendimento seguro mesmo durante uma pandemia infecciosa como a que estamos vivendo, diversas entidades de saúde do mundo se posicionaram.

Em artigo publicado na Harvard Business Review (2), profissionais especialistas do Institute for Healthcare Improvement (IHI) e da Escola de Saúde Pública de Harvard abordaram as melhores estratégias para retomada das cirurgias após um pico de contaminação por COVID-19.

O documento, primeiramente, traz a necessidade de as instituições reconhecerem que alguns fatores humanos facilmente identificáveis durante a crise podem afetar a segurança dos pacientes. Entre os pontos apresentados estão:

Fadiga e estresse: Profissionais de saúde exaustos devido à alta demanda recorrente ao longo de meses e estressados pela pressão de cuidar de um cenário pandêmico e de vivenciar parentes e amigos infectados.

Falta de prática rotineira: O represamento de procedimentos cirúrgicos afastou os cirurgiões de suas atividades e é justamente a prática que leva à manutenção das habilidades técnicas. Sem realizar cirurgias por meses é necessário que eles reforcem a atenção.

Distração: Muitas novas diretrizes surgiram em um curto espaço de tempo. Nem todos os profissionais conseguiram se habituar às novas regras, incorporando-as à rotina.

Sobrecarga: Além da sobrecarga de trabalho gerada pela COVID-19, com muitas cirurgias represadas, algumas instituições podem necessitar aumentar o número de procedimentos ao dia, otimizando as salas e as equipes.

Na sequência, os especialistas se basearam na ciência da confiabilidade para definir estratégias de segurança.

  1. Trazer visibilidade para os riscos – O contato com o paciente antes do procedimento deve ser ainda mais assertivo, principalmente em casos de cirurgias atrasadas, diante dos quais os profissionais de saúde devem considerar que o estado clínico do paciente hoje pode ser diferente do anterior, quando a cirurgia foi recomendada. Além disso, é necessário identificar se os entraves relativos à segurança aumentaram e como proteger as equipes de saúde que estão sobrecarregadas. Segundo o artigo, os executivos das instituições de saúde devem analisar os indicadores para observar tendências e, assim, estarem cientes dos principais gatilhos para mudar o curso antes que a falha de fato ocorra.
  2. Manter a adesão aos protocolos – Durante anos protocolos e diretrizes para cirurgias seguras foram testados e comprovados como eficientes ferramentas para reduzir os riscos. Esses protocolos devem continuar em uso mesmo diante da tentação de – devido à pressão de tempo – pular algumas etapas. Em contrapartida, é indispensável estar atento a novos protocolos que surgiram em virtude da COVID-19.
  3. Cuidar da segurança psicológica e do estresse – Supervisores devem ser capacitados a identificar sinais de alerta de estresse psicológico encaminhando os profissionais acometidos a serviços de aconselhamento. Paralelamente, esses profissionais devem ter liberdade de expressar suas emoções e necessidades psicológicas e precisam se sentir confiantes e acolhidos mesmo no momento de apontamento de falhas e cuidados inseguros cometidos tanto por si mesmos quanto pelos colegas.
  4. Transparência e cuidado com o ambiente de trabalho – Ser transparente e compartilhar com equipes, pacientes e familiares todos os protocolos de segurança que estão sendo adotados gera confiança no atendimento. Para isso, as instituições também devem acompanhar o rastreamento dos casos de COVID-19 em seu entorno para a tomada de decisão caso seja necessário interromper, novamente, os procedimentos eletivos. No Brasil, cada estado faz seu controle e há uma individualização dessas diretrizes.

Trazendo essas percepções ao cenário brasileiro, importante destacar que um documento (3) publicado por uma coalizão de entidades da saúde apresentou diretrizes sobre a retomada de cirurgias eletivas. A publicação enfatiza a necessidade de avaliação epidemiológica local e regional; traz apontamentos sobre o que cada instituição deve considerar para reiniciar seus procedimentos; reforça a preocupação com a garantia de equipamentos de proteção individual para toda a equipe; aborda os critérios técnicos de segurança sobre a testagem para a COVID-19 e faz outras considerações sobre priorização de casos, adequação das etapas do tratamento cirúrgico, coleta e gerenciamento de dados, e controle de riscos.

Referências:

(1) Elective surgery cancellations due to the COVID‐19 pandemic: global predictive modelling to inform surgical recovery plans

(2) How to Safely Restart Elective Surgeries After a Covid Spike – By Lindsay A. Martin, William Berry, and Kedar S. Mate

(3) Orientações para o retorno de cirurgias eletivas durante a pandemia de COVID-19

 

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