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“Paciente não pode continuar perdido no sistema de saúde”, diz jornalista da Folha de S. Paulo

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A jornalista Cláudia Collucci é especializada na área da saúde e escreveu recentemente uma reportagem sobre hospitais que premiam médicos pelo volume de exames, cirurgias e internações que realizam

Cláudia Collucci

Recentemente, a repórter especial Cláudia Collucci, da Folha de S. Paulo, publicou uma matéria sobre hospitais que premiam médicos pelo volume de exames, cirurgias e internações que realizam. “O que mais me impressionou foi a naturalidade como isso tem acontecido. Médicos e hospitais tendem a achar normal essa prática, o que mostra a extensão das distorções do mercado em saúde”, diz a jornalista.

A seguir, confira a entrevista exclusiva de Cláudia Collucci ao Portal IBSP.

 

IBSP – Em sua opinião, qual a extensão do conflito de interesses entre médicos e a indústria da saúde no Brasil?
Cláudia Collucci – Imagino que seja grande, mas fica difícil dimensionar porque não há transparência sobre essas informações. Diferentemente do que acontece nos EUA, que essas informações agora são públicas, aqui ainda são guardadas a sete chaves. Anos atrás, fiz uma reportagem em que consultei as diretrizes clínicas de dez especialidades médicas e mais da metade dos médicos que havia ajudado na elaboração desses protocolos tinham algum conflito declarado.

IBSP – Basear as decisões e os pedidos médicos nos parâmetros da indústria da saúde é uma questão de falta de ética?
Cláudia Collucci – É e não é. Muitas vezes, não existe má-fé, mas sim falta de conhecimento. A indústria está presente na vida dos médicos desde o início da sua formação, patrocinando eventos, fazendo convites, distribuindo brindes. Muitos dos professores colaboram com a indústria, então, é uma relação muito naturalizada. Por outro lado, existem comportamentos antiéticos também, por exemplo, receber vantagens em troca de prescrição de determinados produtos.

IBSP – O médico Luis Claudio Correia, representante do Choosing Wisely no Brasil, acredita que, mesmo sem uma política de recompensas, o excesso de exames continuaria existindo. Para você, como encontrar a sustentabilidade na saúde?
Cláudia Collucci – É preciso mudar os modelos de atenção à saúde (excessivamente hospitalocêntrico) e de remuneração dos prestadores de serviços. O “fee for service” é insustentável, colabora e muito para exames e procedimentos desnecessários e para as fraudes no setor. Precisamos buscar um modelo que premie pela qualidade do serviço prestado, não mais pela quantidade.

IBSP – Como acredita que os pilares de segurança do paciente – desde a padronização de protocolos até o simples fato de assistência ser focada no paciente e não no médico ou no procedimento – podem mudar o cenário da saúde a evoluir de maneira sustentável?
Cláudia Collucci – Sim, é fundamental, mas, de novo, precisamos mudar a forma de cuidado. Esse paciente não pode continuar perdido no sistema, sem referência e contrareferência. Gosto muito do modelo britânico, centrado nos “GPs”, que gerencia essa rede de cuidados e decide se é o caso de encaminhar ou não o paciente a atendimentos especializados. Precisamos ter modelos similares no Brasil também, nos sistemas público e privado.

IBSP – A inclusão de temas relacionados à segurança do paciente e qualidade na assistência nos cursos de medicina pode ser um caminho para mudar a cultura do médico brasileiro?
Cláudia Collucci – Pode ser uma forma de chamar a atenção dos médicos para essa nova cultura. Mas é preciso mais, por exemplo, engajamento de outros atores, como os órgãos reguladores (ANVISA e ANS), os pagadores (governos e planos de saúde) e os gestores da saúde.

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Cláudia Collucci, jornalista especializada em saúde, escreveu uma reportagem sobre hospitais que premiam médicos pelo volume de procedimentos realizados

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