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Saúde Baseada em Valor – Uma experiência norte-americana

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Em outubro de 2018, o sistema de saúde norte-americano lançou o Medicare Bundled Payments for Care Improvement – Advanced (BPCI-A) para o setor hospitalar. Voluntário, o programa envolvia um modelo de pagamento onde instituições e profissionais de saúde assumiam a responsabilidade pelos custos totais da assistência com base nos desfechos.

Para isso, foram criadas oito categorias de assistência (envolvendo, por exemplo, procedimentos cardíacos e ortopédicos) e o foco era replanejar o modelo de cuidado, envolver os provedores de saúde, o paciente e o cuidador, e fazer análises quanto à responsabilidade financeira daquele processo (1).

Apesar de o programa seguir efetuando pagamentos no formato fee-for-service, trabalhava com ajuste trimestral de metas e podemos, inclusive, utilizar como um exemplo de adesão ao conceito de Value-Based Healthcare, traduzido para o português como Saúde Baseada em Valor.

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Para demonstrar o desempenho do programa, um estudo publicado no The New England Journal of Medicine (2) avaliou grupos de pacientes que receberam alta entre janeiro de 2017 (antes da implementação) e setembro de 2019 (após a implementação). Foram envolvidos na pesquisa 826 hospitais que aderiram ao projeto, 2016 hospitais que nunca aderiram e 334 que aderiam tardiamente. O objetivo principal era entender como o programa impactou os pagamentos e qual a taxa de readmissão após 90 dias da alta, mas, paralelamente, o estudo também observou taxa de mortalidade.

Interessante notar que a adesão ao Medicare Bundled Payments for Care Improvement – Advanced (BPCI-A) resultou em alterações financeiras sem trazer qualquer impacto negativo nas taxas de readmissão dos pacientes e mortalidade.

  • Instituições que ADERIRAM – A média era de US$ 27.315 e houve redução de US$ 78 por trimestre no período de adesão ao programa
  • Instituições que NÃO ADERIRAM – A média era de US$ 25.994 e houve redução de US$ 26 por trimestre no período do estudo

Vale ressaltar que houve diferença significativa na tendência de redução a cada trimestre entre os dois grupos (US$ 52) e que, dessa diferença, 46,2% estavam relacionados a processos de enfermagem.

Entre as observações traçadas pelos pesquisadores está o fato de que muitos dos hospitais que aderiram ao programa e conquistaram reduções financeiras se aliaram a parceiros estratégicos especializados nesse modelo de negócio, ou seja, somaram ao seu conhecimento informações de terceiros sobre infraestrutura, análise de dados e direcionamento estratégico.

Além disso, apesar de a adesão ao programa não ter gerado diretamente mudanças nas taxas de readmissão dos pacientes, um dado merece ser destacado. Segundo a pesquisa, os pacientes que foram tratados nos hospitais que optaram por implementar o BPCI-A permaneceram mais saudáveis em casa após a alta, ou seja, tiveram que realizar menos visitas à emergência ou a consultas médicas.

De acordo com Lucas Zambon, diretor científico do IBSP, é preciso ter um olhar cético sobre esses resultados. “Notem que os custos de instituições que não aderiram ao Bundled Payment já eram US$ 2 mil mais baixos do que os custos das instituições que aderiram. Isso pode sugerir que já havia gastos desnecessários no ponto de partida. Outro ponto é que todas as instituições reduziram custos ao longo do tempo, mesmo nos locais que não aderiram ao modelo, o que mostra que o Bundled Payment não é um incentivo isolado para controle de custos”, diz.

Por outro lado, o especialista acredita que há insights interessantes. “Os locais aderentes ao modelo de Bundled Payment tiveram menores taxas de idas ao pronto-socorro pelos pacientes, o que pode sugerir maior incentivo para a adesão a protocolos e estabelecimento de linhas de cuidado”, completou.

A adesão à um modelo de Saúde Baseada em Valor é algo muito debatido em todo o mundo, não diferindo do cenário brasileiro. É um modelo para o financiamento em saúde que exige o envolvimento de todos os atores da saúde, sejam gestores, líderes, trabalhadores e até mesmo agências reguladoras. É um tema que merece atenção, pois está cada dia mais sendo debatido nos sistemas nacionais e observar experiências estrangeiras contribui com a construção de um modelo eficiente para o contexto do Brasil.

Referências:

(1) BPCI Advanced – CMS – Centers for Medicare & Medicaid Services

(2) Year 1 of the Bundled Payments for Care Improvement–Advanced Model

 

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