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Turismo de saúde e a relação com segurança do paciente

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Por Sylvia Lemos Hinrichsen*

É crescente o número de pessoas que procuram destinos os mais diferentes, alguns, com doenças endêmicas, não usuais em seus países(1-10). E neste contexto algumas enfermidades ganham caráter globalizado e passam a ter uma geografia própria que norteia os riscos de adoecimento, que variam segundo o destino, a duração da estadia, os objetivos dos deslocamentos, padrões de alojamento, higiene alimentar e comportamentos dos indivíduos(2,10-14).

A Organização Mundial da Saúde(OMS), através do regulamento sanitário, procura prevenir, proteger e controlar a disseminação internacional de doenças, assim como prover uma resposta pública a questões de saúde que possam envolver a disseminação de doenças entre países e continentes(15).

Os riscos de se adquirir uma doença antes, durante ou após deslocamentos de pessoas, sejam elas, adultos saudáveis, imunossuprimidos, crianças, gestantes, idosos ou doentes, variam segundo a geografia das doenças e os movimentos feitos pelas pessoas sejam quais forem os motivos(1-10).

Uma das maneiras de se prevenir doenças é atualizar o estado vacinal do indivíduo, seja qual for a idade. Essa atualização será importante não só para o período em que se vai para algum lugar, assim como após o seu retorno(16,17). É importante se estar atento que algumas vacinas exigem esquemas que necessitam de mais de uma dose e por isso devem ser programadas com antecedência, especialmente para o trabalhador que viaja com freqüência e passam a ter riscos inerentes à atividade ou ao meio ambiente(surtos, epidemias, endemias, clima, altitude, fuso horário, estrutura de saúde, local, entre outros(1,2,9-14).

Durante viagens é importante se estar saudável. Sabe-se que cerca de 8% dos viajantes para países em desenvolvimento necessitam de assistência médica quando em viagens ( 1,2,13). E, o conhecimento sobre o destino da viagem pode ajudar a evitar ou prevenir doenças em países em desenvolvimento durante e após deslocamentos (9-12).

Também é importante saber que existem diferenças significativas na morbidade das doenças segundo suas geografias. Doença febril sistêmica sem achados de localização pode ser comum em certas partes do mundo, assim como diarreia e ou problemas dermatológicos (1,2,10-14).

Febre em viajantes é comumente associada com malária entre viajantes que retornam da África Sub-Sahara, África ou Sul da Ásia Central, assim como distúrbios dermatológicos, estes, especialmente na região litoral do Brasil (1,2,10-14).

Por conta das frequentes viagens transcontinentais, médicos e profissionais de saúde precisam estar atentos para a geografia das doenças em viajantes e ou imigrantes (antes, durante ou após viagens), para um pronto diagnóstico e tratamento. Os principais problemas de saúde relacionados à viagens são: febre, diarréia e doenças dermatológicas (1-14 ).

Também tem sido crescente o número de viagens para tratamento de saúde, seja por razões de doenças e ou apenas estéticas. E, várias são as instituições de saúde que investem nesse segmento, através de pesquisas, capacitação profissional e equipamentos de última geração, para transformar alguns hospitais em destino de pacientes, caracterizando o que se denomina de turismo de saúde( 6,8, 15,16).

O turismo de saúde, inicialmente, chamado de turismo médico,uma atividade das mais antigas, vem a cada dia se expandindo em todo o mundo, devdio ao comportamento das pessoas e suas motivações de viagens e expectativas de qualidade de vida que precisam ser atendidas, criando assim, novas tendências de consumo na área da saúde que variam segundo não só as necessidades individuais mas, também as características do destino, das viagens, dos deslocamentos das pessoas(15,16).

O Turismo de Saúde, ao longo da história desenvolveu-se mais fortemente focado na busca pela cura, até mesmo pela tradição da medicina ocidental, que enfatiza mais a doença e a intervenção do que a prevenção. Entretanto, nos dias atuais existe em vários países do mundo, há uma crescente preocupação com a manutenção da saúde em seu aspecto preventivo e não apenas com a recuperação e ou tratamento, no aspecto curativo, estando direcionando às pessoas a buscarem “recursos naturais de tratamento desintoxicantes e relaxantes, tão necessários ao desgaste psicofísico provocado pela vida moderna”( 15,16).

No Brasil, o Turismo de Saúde desponta como uma tendência da atualidade para o desenvolvimento tanto do turismo, como da própria área médico-hospitalar por concentrar diferentes vantagens entre as quais se destacam (15,16,17):
• A crescente preocupação com a saúde e o bem-estar estimula o fortalecimento do turismo como uma alternativa para o desenvolvimento sócio-econômico das regiões;
• O segmento Turismo de Saúde pode ser uma resposta positiva ao desafio da sazonalidade do turismo, pois permite maior mobilidade da promoção de serviços de saúde preventiva ou curativa desvinculados das épocas do ano tipicamente destinadas às viagens;
• O avanço da tecnologia contribui para tratamentos de saúde inovadores e, com os efeitos da globalização, os mercados e as culturas ficam aproximados.

No entendimento do que venha a ser o Turismo de Saúde, é importante compreender que esta modalidade de serviços incluem (6,15,16,17):
• Atividades turísticas – oferta de serviços, equipamentos e produtos que viabilizam o deslocamento e estada do turista através de transporte; operação e agenciamento turístico; hospedagem; alimentação; recepção; recreação e entretenimento; assim como outras atividades complementares.
• Meios e serviços – os fatores que determinam a escolha de um destino caracterizados pela prestação de serviços ofertados em equipamentos próprios da área de saúde (hospitais, clínicas, consultórios) e em equipamentos de saúde com enfoque turístico (spas, balneários, estâncias), e também pela fruição de condições e elementos com propriedades conhecidas como terapêuticas (clima, água, terra, ar).
• Fins médicos, terapêuticos e estéticos – referem-se aos objetivos que motivam o deslocamento/viagens, isto é, a busca de determinados meios e serviços que podem ocorrer em função da necessidade de tratamento e cura, de condicionamento e bem-estar físico e mental.

Também é importante conhecer as diversas motivações que levam as pessoas a buscarem o Turismo de Saúde, que permeiam desde a disponibilidade de serviços, muitas vezes não acessíveis em locais/países de origem, assim como a acessibilidade a estes, qualidade de tratamento/instituições que minimizem possíveis complicações, assim como benefícios adicionais e bons preços(justos)(6,16).

O usuário deste tipo de serviço, na sua grande maioria busca (21):

• Promoção da saúde – envolve ações sistemáticas e contínuas, de caráter processual que aglutina a educação e a prevenção, não se limitando a atividades ou a eventos esporádicos.
• Manutenção da saúde – associada às situações e práticas que possibilitam o lazer, descanso físico e mental, diminuição dos níveis de estresse, educação de hábitos e estilo de vida;
• Prevenção de doença – relacionada aos tratamentos acompanhados por equipes médicas e ou profissionais especializados, que visam a promoção, educação e manutenção da saúde e a prevenção de determinadas doenças;
• Cura de doença – utilização de tratamentos com o acompanhamento de equipes médicas ou recursos humanos especializados e integrados em estruturas próprias de saúde(clínicas, hospitais, instituições), os quais têm como objetivo a cura ou a amenização dos efeitos causados por diferentes doenças e ou situações clínicas que afetam a qualidade de vida das pessoas.

Nesta modalidade assistencial à saúde as pessoas em movimentos/viagens, em busca de uma melhor qualidade de vida, são várias as especialidades procuradas, segundo qualidade de assistência, resultados, equipes especializadas, além do local e suas potencialidades turísticas, antes e ou após os procedimentos que serão realizados pelo paciente/viajante/turista, adeptos a este tipo de cuidados (Quadro 1) (6,7, 8,16).

Quadro 1. Especialidades focadas no Turismo de Saúde 6,7,8,16

 

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Para que o segmento de Turismo de Saúde tenha sucesso, é fundamental, que existam segmentos como Spas, Resorts, Balneários, Clínicas Médicas, hospitais, centros de bem-estar, e outros que ofereçam segurança às pessoas que procuram este tipo de serviços. E, neste contexto, os processos de qualidade, gerenciamento de riscos e de acreditação são itens de extrema importância na escolha do local segundo às necessidades existentes( 6,16-21).

É fundamental nesta modalidade assistencial, seja qual o tipo e local, que os riscos de complicações e ou eventos sejam os menores possíveis, especialmente, os relacionados ao controle de infecções relacionados à assistência à saúde(IRAS), quando existem procedimentos invasivos( 6,18-21).

Também é fundamental que o destino escolhido tenha legislações que garatam uma maior segurança, especialmente, após os tratamentos/cuidados, principalmente se ocorrência de eventos inesperados e ou IRAS(6,16).

Sabe-se, entretanto, que quando se trata da prestação de serviços turísticos, de modo geral aplicam-se alguns dispositivos legais pertinentes aos meios de hospedagem, operação e agenciamento turístico, guiamento, transportes e eventos, entre outros. Por outro lado, percebe-se que existem poucos marcos legais que se relacionam às questões do Turismo de Saúde, e, essa carência de atos regulatórios específicos é um dos fatores que tem dificultado o desenvolvimento do segmento, em muitos países(16).

Já existem vários relatos de IRAS após procedimentos relacionados ao Turismo de Saúde, como o relato do isolamento de uma enzima (betalactamase NDM-1) nas bactérias Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae em 37 pessoas que voltaram ao Reino Unido após intervenções cirúrgicas e ou internações hospitalares em países como a Índia e Paquistão. Além de outros casos esporádicos também identificados em países como Estados Unidos da América(EUA), Canadá, Bélgica, Holanda, Suécia e Austrália, relacionados à viagens de europeus à Ásia para tratamento cirúrgico/estético.Estes dados chamam atenção para a rápida disseminação para vários países, além de alguns fatores próprios à NDM-1, uma vez que estas bactérias multirresistentes identificadas na Índia estão disseminadas na comunidade naquele país, representando uma situação de risco até maior do que apenas a incidência documentada de casos relacionados à internação hospitalar em países asiáticos.Os casos de NDM-1 identificados em outras partes do mundo têm sido comumente registrados em pacientes que tiveram uma internação em seus países de origem, sendo então detectada a presença da bactéria resistente. Casos de pessoas que também podem estar colonizadas por esta bactéria, de forma assintomática, tornam-se fonte de disseminação pela comunidade, representando um risco potencial de surtos em várias partes do mundo(22, 23).

Nos dias atuais, as instituições de saúde (hospitais) tentam não ter “cara de hospital” através de conceitos de hotelaria hospitalar e hospitalidade (acolhimento), como também, ter processos de segurança do paciente e qualidade, que garantam estrutura, processo e resultados segundo padrões internacionais de segurança do paciente. Neste contexto, é também, fundamental que as instituições de saúde que visam o mercado do turismo de saúde, estejam preparadas para receberem viajantes de várias localizações, que retornarão para suas cidades de origem nas diversas regiões do mundo(6, 24-,26).

Assim, para que haja uma maior segurança do paciente/viajante, as instituições de saúde/hospitais, assim como outros, incluindo hotéis, spas, deverão estar atentos, não só nos processos de qualidade, mas, em especial para o controle de infecções(IRAS)/ biossegurança e de bactérias multirresistentes, que serão fundamentais para que haja um monitoramento efetivo dos riscos sanitários hospitalares e internacionais, relacionados às viagens e ao turismo de saúde.

 

REFERÊNCIAS

1. Freedman, DO, Weld, LH; Kozarsky, PE, et aL. Spectrum of disease and relation to place of exposure among ill returned travelers. New Engl. J. Med. 2006; 354:119-30.

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3.  HINRICHSEN, SL. As Doenças e seus Movimentos. Prática Hospitalar. Ano XII. No 67. Jan-Fev/2010: 6-7.

4. Hinrichsen, SL; Cavalcanti, R.; Jucá, M. et al. Medicina de Viagem. In: Hinrichsen, SL. DIP. Doenças Infecciosas e Parasitárias. Guanabara Koogan. 2005. pp. 942- 956.

5. Hinrichsen, SL. Viagens inesquecíveis e os souvenirs trazidos com elas. Doenças Dermatológicas. Prática Hospitalar. Ano XII. No 67. Jan-Fev/2010:24-25.

6. Hinrichsen, SL. Saúde do Viajante e Turismo Médico. Interfaces com Qualidade e Segurança. Prática Hospitalar. Ano XII. No 72. Nov-Dez/2010: 18- 22.

7. Hinrichsen, SL. As doenças e seus movimentos. Editorial. Prática Hospitalar. Ano XII. No 67. Jan-Fev, 2010: 6-7.

8. Hinrichsen, SL. Turismo médico e a saúde do viajante. Boletim SBI. Julho-Agosto-Setembro, 2010. Disponível em: http://www.infectologia.org.br/cloud/uploads/2015/03/boletim_sbi_31.pdf>. Acessado em : 24/10/16.

9. Kemmerer, TP; Cetron, M.; Harper, L. et al. Health problems of corporate travelers: risk factors and manangement. J. Travel .med. 1998; 5: 184- 7.

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21. Igreja, RP. Medicina de Viagem: uma nova área de atuação para o especialista em Doenças Infecciosas e Parasitárias. Rev. Soc. Bras. Med.  Trop. Vol.36 no.4 uberaba.  July/aug. 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0037-86822003000400020. Acessado em: 24/10/16.

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25. Rubinstein, C. The Dangers of Medical Tourism. Disponível em: <https://plasticsurgeons.com.au/wp-content/uploads/2015/02/Dangers-of-Medical-Tourism.pdf> >. Acessado em: 24/10/16.

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