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Vigilância epidemiológica mostra aumento da resistência bacteriana em infecção sexualmente transmissível no Brasil

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Cerca de 82 milhões de adultos no mundo convivem com gonorreia, infecção sexualmente transmissível e uma das doenças que vêm sofrendo com a resistência bacteriana. Com isso, as opções de tratamento foram reduzidas drasticamente nos últimos 80 anos, o que despertou um alerta na comunidade global de saúde para uma vigilância epidemiológica mais assídua.

Para estudar e traçar estratégias para melhorar esse cenário, em 2015 o Brasil estabeleceu o primeiro programa nacional de vigilância da resistência antimicrobiana gonocócica. Na ocasião, identificou altos níveis de resistência à ciprofloxacina, medicamento que, dois anos depois, foi substituído pela ceftriaxona 500 mg em combinação com azitromicina 1 g. Essa passou a ser a primeira linha de terapia empírica para manejo sindrômico e para gonorreia diagnosticada etiologicamente.

Com o intuito de analisar se a resistência antimicrobiana aumentou nos últimos anos, o Laboratório de Biologia Molecular, Microbiologia e Sorologia da Universidade Federal de Santa Catarina realizou uma nova vigilância para comparar com os dados obtidos entre 2015 e 2016 (1).

A avaliação foi baseada em isolados de Neisseria gonorrhoeae coletados da secreção uretral de 633 homens entre os anos de 2018 e 2020. Esses isolados passaram por testes de suscetibilidade a oito antimicrobianos: ciprofloxacina, tetraciclina, benzilpenicilina, azitromicina, cefixima, gentamicina, espectinomicina e ceftriaxona.

Como resultados, os isolados não apresentaram nenhuma resistência à apenas três medicamentos: gentamicina, ceftriaxona e espectinomicina. Quanto aos outros cinco antimicrobianos, as taxas de resistência identificadas no estudo foram:

  • 67,3% – Ciprofloxacina
  • 40% – Tetraciclina
  • 25,7% – Benzilpenicilina
  • 10,6% – Azitromicina
  • 0,3% – Cefixima

 

Como o objetivo era analisar se houve, nos últimos anos, aumento da resistência antimicrobiana dentro desse cenário terapêutico, é importante enfatizar que os estudos atuais passaram por melhorias e, inclusive, trazem dados representativos de mais regiões brasileiras, o que melhora a abrangência territorial dos resultados.

Por fim, os principais achados foram:

  • Assim como entre 2015 e 2016, os dados de 2018 a 2020 mostram altas taxas de resistência à ciprofloxacina, tetraciclina e benzilpenicilina.
  • A resistência à ciprofloxacina segue aumentando e, em algumas regiões, já ultrapassa a marca de 74%, o que coincide com dados globais
  • Como o principal tratamento padrão, hoje, envolve o uso de azitromicina, o aumento de 6,9% para 10,9% da resistência a esse medicamento é preocupante, mesmo que nenhum isolado tenha apresentado um alto nível de resistência
  • O uso excessivo de azitromicina durante a pandemia de covid-19 no Brasil e em diversos outros países, pode ter contribuído com a elevação dessas taxas de resistência
  • O baixo nível de resistência à cefixima identificado no estudo é importante e promissor
  • O fato de não ter sido identificada nenhuma resistência à ceftriaxona injetável é muito relevante, visto que essa é a última opção restante para monoterapia empírica de primeira linha para tratamento da gonorreia

 

Lucas Zambon, nosso diretor científico, destaca que os dados dessa pesquisa são muito importantes, mas que “quando falamos de resistência antimicrobiana, é fundamental que sejam feitos mapeamentos locais para diferentes doenças, de modo a educar e direcionar prescritores sobre qual a melhor estratégia a ser adotada tanto para viabilizar a efetividade do tratamento, mas também para poupar uso inadequado de antibióticos”.

A Semana Mundial de Conscientização sobre o Uso de Antimicrobianos, período que anualmente promove melhores práticas para evitar o surgimento e a disseminação da resistência antimicrobiana, ocorre entre 18 e 24 de novembro e tem adesão global. Com promoção da Organização Mundial de Saúde (OMS), foca no compartilhamento de informações relevantes, educação e treinamento dos profissionais.

Referências:

(1) National surveillance of Neisseria gonorrhoeae antimicrobial susceptibility and epidemiological data of gonorrhoea patients across Brazil, 2018–20

 

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