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Pesquisa sobre clima de segurança possibilita traçar estratégias de melhoria e aprendizado

Pesquisa sobre clima de segurança possibilita traçar estratégias de melhoria e aprendizado
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Estudo realizado pela enfermeira Juliana Tondo, da Unicamp, sobre a percepção dos profissionais de enfermagem sobre clima de segurança do paciente revela dados relacionados, por exemplo, à satisfação no trabalho e ao reconhecimento do estresse

Com objetivo de avaliar a percepção dos profissionais sobre o clima de segurança e verificar se a mesma difere entre as categorias profissionais, a enfermeira Juliana Tondo, mestre em Ciências da Saúde pela Unicamp, realizou estudo quantitativo e transversal, em um hospital público e de ensino localizado no interior do Estado de São Paulo, que possui acreditação nível 3 pela ONA – Organização Nacional de Acreditação e acreditação internacional pela Accreditation Canada.

“A coleta de dados foi realizada através da versão brasileira do SAQ – Short Form, que tem como objetivo avaliar a percepção dos profissionais em relação às atitudes de segurança”, conta Juliana.

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A versão brasileira é composta por 41 itens distribuídos em oito domínios: clima de trabalho em equipe, clima de segurança, satisfação no trabalho, reconhecimento do estresse, percepção da gerência da unidade, percepção da gerência do hospital e condições de trabalho. As respostas foram avaliadas por meio de uma escala tipo Likert com cinco pontos variando de zero a cem pontos. Zero representava uma pior percepção do clima de segurança e cem a melhor percepção. A pontuação de cada domínio era obtida por meio do cálculo da média da soma e foram considerados valores positivos aqueles que apresentaram pontuação total igual ou acima de 75.

Participaram do estudo 259 profissionais, sendo eles 46 enfermeiros e 213 técnicos e auxiliares de enfermagem. “Na avaliação dos domínios que compõe o SAQ, apenas o domínio satisfação no trabalho foi percebido como positivo pelos profissionais de ambas as categorias. A percepção do clima de segurança diferiu entre as categorias para a maioria dos domínios, exceto para o reconhecimento do estresse”, comenta a pesquisadora Juliana Tondo.

“O estudo realizado é importante tanto do ponto de vista assistencial quanto gerencial, pois pode auxiliar na implementação de estratégias para consolidação de uma cultura de segurança nas instituições de assistência à saúde”, pontua a enfermeira.

Confira a seguir a entrevista exclusiva de Juliana Tondo ao Portal IBSP.

IBSP – A percepção dos profissionais de enfermagem em relação ao ambiente de trabalho pode influenciá-los no exercício da profissão, refletindo, inclusive, na segurança do paciente?
Juliana Tondo – Sim. Estudos internacionais apontam que a percepção dos profissionais de enfermagem em relação ao seu ambiente de trabalho pode influenciar a maneira como eles se veem profissionalmente e no modo como executam suas atividades, o que pode refletir diretamente na segurança do paciente.

IBSP – O profissional de enfermagem que atua sob estresse pode interferir na qualidade da assistência à saúde como um todo?
Juliana Tondo – Os erros associados à assistência à saúde são comumente relacionados aos profissionais envolvidos diretamente na assistência ao paciente. No entanto, estudos têm mostrado que o profissional não é o único envolvido na ocorrência de um erro, e suas intervenções estão fundamentadas no princípio de que todos os elementos do sistema de saúde influenciam na segurança do paciente e, consequentemente, na qualidade da assistência.

Diversos modelos teóricos foram desenvolvidos com o objetivo de explicar a origem e os fatores envolvidos na ocorrência dos erros. O desenvolvimento de cada modelo e sua ampliação aponta para diversos fatores envolvidos no elemento ‘fator humano’ e sua interação com as particularidades do paciente, ambiente de trabalho, tecnologia, atividades a serem desenvolvidas, trabalho em equipe, fatores organizacionais, administrativos e institucionais.

Cotidianamente, os profissionais de enfermagem lidam com situações de constante dinamismo, sejam relacionadas às condições clínicas dos pacientes, ao gerenciamento de recursos humanos (como absenteísmo e rotatividade) ou, ainda, aos aspectos tecnológicos. Não raras são as oportunidades em que eles estão sob forte estresse, o que também pode influenciar na segurança da assistência em saúde. Dessa maneira, é imprescindível que os processos e as falhas sejam reconhecidos, estabelecendo-se medidas para prevenir o acontecimento de erros e aprimorar a comunicação com os envolvidos em todos os processos de cuidar.

IBSP – Cultura de segurança é o principal fator que influencia o comportamento dos profissionais de saúde?
Juliana Tondo – A Joint Commission define cultura de segurança como “o conjunto global das percepções de clima, relacionado à dimensão do comprometimento dos recursos direcionados às questões de segurança e promoção de comportamentos seguros na organização”.

A cultura de segurança é um importante fator que guia muitos dos comportamentos dos profissionais de saúde a considerarem a segurança do paciente como uma de suas maiores prioridades. Desta forma, é necessário que a cultura no ambiente de saúde favoreça a perspectiva dos profissionais quanto à promoção do cuidado seguro ao paciente.

A avaliação da cultura de segurança em uma instituição é obtida por meio da percepção do clima de segurança pelos seus profissionais. O clima de segurança é definido como “a medida das atitudes e percepções individuais das características da cultura de segurança entre os trabalhadores da organização e pode variar dentro da instituição” (Singer SJ, et al. Patient Safety Climate in 92 US Hospitals: differences by work area and discipline. Med Care 2009;47:23–31).

IBSP – Como se define um clima de segurança ideal?
Juliana Tondo – Para avaliar a percepção individual de segurança de cada profissional, foi utilizada a versão brasileira do instrumento Safety Attitude Questionnair – Short Form. Este instrumento é composto por 41 itens distribuídos em oito domínios: clima de segurança, satisfação no trabalho, reconhecimento do estresse, percepção da gerência da unidade, percepção da gerência do hospital e condições de trabalho. Considera-se uma percepção positiva sobre o ambiente quando a pontuação final da avaliação de cada domínio for superior a 75. Desta forma, é possível identificar as limitações e fragilidades existentes na organização, auxiliando na implementação de estratégias que favoreçam a construção de uma cultura de segurança ideal.

IBSP – A avaliação do clima de segurança sob a percepção da enfermagem pode fornecer subsídios para a liderança identificar os pontos fracos da organização? E, assim, implementar estratégias para construir uma cultura de segurança em todos os níveis e funções?
Juliana Tondo – Sim. A pesquisa do clima de segurança pode ser considerada um indicador de desempenho da segurança em contraste aos indicadores de resultado apresentados pela instituição e, desta forma, torna-se importante para entender e prever resultados organizacionais significativos.

Pesquisas sobre clima de segurança nas instituições de saúde possibilitam identificar as áreas que necessitam ser melhoradas e estabelecer estratégias de melhorias que promovam um clima de segurança positivo, bem como o aprendizado com as potencialidades identificadas. É possível prever os resultados esperados verificando a postura dos profissionais de uma organização frente ao clima de segurança. O clima varia dentro de uma organização e entre os profissionais e pode predizer resultados diferentes.

Assim, a partir do diagnóstico situacional, a avaliação do clima de segurança nas instituições de saúde constitui uma importante ferramenta de gestão, que poderá subsidiar os gestores de enfermagem e administradores na identificação das limitações e fragilidades existentes para então estabelecerem medidas que proporcionem aos profissionais, em especial, a equipe de enfermagem, um clima positivo que favoreça a segurança e satisfação do cliente.

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