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Quando o burnout do cirurgião-dentista se transforma em risco para o paciente

Quando o burnout do cirurgião-dentista se transforma em risco para o paciente
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Revisão científica aponta associação entre exaustão, intenção de abandono da profissão e aumento de erros no atendimento odontológico

A síndrome de burnout, caracterizada por exaustão emocional, despersonalização e redução da realização profissional, já é amplamente reconhecida como um problema relevante entre profissionais da saúde. No campo da odontologia, esse cenário não é diferente e pode ser ainda mais preocupante do que se imagina.

Uma revisão científica recente buscou investigar justamente essa relação: até que ponto o burnout entre cirurgiões-dentistas está associado à segurança do paciente? Os resultados mostram que, embora ainda haja escassez de estudos específicos, as evidências disponíveis indicam uma conexão clara entre o esgotamento profissional, a intenção de abandonar a profissão e a ocorrência de erros no atendimento clínico.

A análise identificou que profissionais com altos níveis de burnout apresentaram mais de quatro vezes mais probabilidade de relatar erros nos últimos seis meses. Além disso, três dos cinco estudos incluídos apontaram associação direta entre burnout e a intenção de deixar a profissão.

Esse dado dialoga com achados mais amplos da literatura médica. Estudos com médicos mostram que o burnout está associado ao aumento de incidentes relacionados à segurança do paciente, além de piora no desempenho profissional, comprometimento cognitivo e maior insatisfação dos pacientes. Em um contexto global já marcado pela escassez de profissionais de saúde, esse cenário agrava ainda mais os desafios de acesso e continuidade do cuidado.

Dentista – Sinais de alerta e carência de estudos

Apesar da relevância do tema, a revisão chama atenção para uma lacuna importante: entre mais de 200 artigos inicialmente identificados, apenas cinco abordaram diretamente a relação entre burnout e segurança do paciente na odontologia. A maioria dos estudos ainda se concentra na prevalência da síndrome e em seus determinantes, deixando em segundo plano seus impactos assistenciais.

Ainda assim, os achados disponíveis são consistentes o suficiente para indicar um risco concreto. A associação entre burnout e erros clínicos pode ser explicada, em parte, por comprometimentos cognitivos como falhas de memória, redução da atenção e dificuldade de concentração, frequentemente observados em profissionais esgotados.

Diante desse cenário, entidades internacionais já começam a se posicionar. A FDI (World Dental Federation), por exemplo, defende que associações odontológicas nacionais promovam mudanças estruturais em modelos de remuneração e regulamentação que, muitas vezes, contribuem para o adoecimento dos profissionais. A entidade também destaca a necessidade de abordar não apenas estratégias individuais de enfrentamento, mas também fatores sistêmicos que favorecem o burnout.

No Brasil, embora ainda haja escassez de estudos recentes com foco na relação entre burnout e segurança do paciente na odontologia, evidências anteriores já sinalizavam um cenário preocupante. Um estudo publicado pela Revista de Odontologia da UNESP, em 2010, identificou que 48,3% dos cirurgiões-dentistas do serviço público avaliados apresentavam burnout. Entre os sintomas relatados estavam cansaço antes mesmo do início da jornada, dificuldade de lidar com a pressão do trabalho, falta de energia e realização de atividades de forma mecânica, fatores que podem impactar diretamente a qualidade do cuidado.

Passados mais de 15 anos, e considerando eventos recentes como a pandemia de COVID-19, é plausível supor que esses desafios tenham se intensificado, reforçando a urgência de ampliar a investigação sobre o tema.

Referências:

(1) The Relationship Between Burnout in Dental Care Professionals and Patient Safety: A Scoping Review

(2) Burnout em dentistas do serviço público: ter ou não ter, eis a questão 

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