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Alta hospitalar de idosos expõe falhas críticas na transição do cuidado

Alta hospitalar de idosos expõe falhas críticas na transição do cuidado
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Estudo internacional aponta erros evitáveis na atenção primária após a alta, com impacto direto na segurança do paciente e nos custos assistenciais

A alta hospitalar, especialmente entre pacientes idosos, permanece como um dos momentos mais vulneráveis da jornada assistencial. Um estudo recente conduzido no Reino Unido analisou registros eletrônicos de saúde de pacientes com 65 anos ou mais e identificou falhas relevantes no acompanhamento desses pacientes na atenção primária após a saída do hospital.

A pesquisa, que avaliou 263 pacientes ao longo de um ano, mostrou que 70,7% deles precisaram de algum tipo de cuidado após a alta. Ainda mais preocupante: 17,5% foram reinternados em até 90 dias por causas relacionadas diretamente ao processo de alta.

Um dos principais pontos de fragilidade identificados está na execução das orientações contidas nos resumos de alta. Ao todo, foram registradas 551 ações recomendadas para continuidade do cuidado como ajustes de medicação, solicitação de exames e encaminhamentos, mas mais de 21% dessas ações não foram realizadas. A maioria das falhas envolvia medicamentos, etapa crítica para a segurança do paciente.

Erros evitáveis e danos reais na alta hospitalar

Os dados revelam que 12,5% dos pacientes sofreram algum tipo de erro relacionado ao pós-alta, enquanto 4,4% foram efetivamente prejudicados por essas falhas. Em muitos casos, os danos foram classificados como evitáveis e resultaram em novas internações hospitalares.

Entre os fatores de risco mais relevantes estão a presença de demência e a necessidade de cuidadores, que aumentaram significativamente a probabilidade de erros e danos. Além disso, pacientes com internações mais longas também apresentaram maior risco de falhas no seguimento do cuidado.

O estudo também reforça que problemas de comunicação como resumos de alta incompletos, atrasados ou pouco claros continuam sendo uma barreira importante entre os níveis assistenciais. Essa falha de integração compromete a continuidade do cuidado e transfere para a atenção primária a responsabilidade de lidar com informações incompletas ou inconsistentes.

Envelhecimento populacional e complexidade clínica

O cenário descrito pelo estudo britânico encontra paralelo no contexto brasileiro. Dados da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), de 2024, mostram que a maioria dos pacientes internados em UTIs no país é composta por idosos, com idade média de 63 anos. Esses pacientes apresentam, com frequência, múltiplas comorbidades, como hipertensão arterial (66,6%), diabetes (33,9%), além de condições como insuficiência renal, insuficiência cardíaca e neoplasias.

Esse perfil reforça a complexidade do cuidado e amplia os riscos durante a transição entre hospital e atenção primária. A presença de polifarmácia, fragilidade clínica e necessidade de acompanhamento contínuo torna esse grupo especialmente suscetível a eventos adversos após a alta.

Diante desse contexto, especialistas destacam a necessidade de revisão dos processos assistenciais na atenção primária, com foco em estratégias que garantam a execução segura das orientações de alta. Entre as medidas apontadas estão o uso de ferramentas estruturadas, padronização de fluxos, melhoria na comunicação entre níveis de atenção e fortalecimento do acompanhamento pós-alta.

O estudo internacional conclui que, sem intervenções direcionadas, a transição do cuidado continuará sendo um elo frágil no sistema de saúde, com impactos diretos na segurança do paciente, nos custos assistenciais e na sustentabilidade dos serviços.

Referências:

(1) General practice follow-up after hospital discharge in older adults: Retrospective records analysis

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