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Auditoria com feedback melhora a prática profissional, mas combinação com outras estratégias amplia seus efeitos na segurança do paciente

Auditoria com feedback melhora a prática profissional, mas combinação com outras estratégias amplia seus efeitos na segurança do paciente
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Revisão sistemática da Cochrane mostra que audit and feedback promove melhorias na qualidade assistencial e identifica quais características tornam essa intervenção mais efetiva

A auditoria acompanhada de feedback (audit and feedback – A&F) permanece como uma das estratégias mais bem fundamentadas cientificamente para promover melhorias na prática dos profissionais de saúde. No entanto, uma nova revisão sistemática da Cochrane reforça que seu potencial é significativamente ampliado quando a intervenção deixa de ser aplicada de forma isolada e passa a integrar programas mais amplos de melhoria da qualidade, combinando ações como consultoria, educação permanente, lembretes, facilitação das equipes e planos estruturados de ação.

Os resultados são apresentados na revisão Audit and feedback: effects on professional practice (Review), publicada em 2026, que atualiza uma das principais referências internacionais sobre o tema. Ao reunir evidências de 292 estudos randomizados, envolvendo diferentes cenários assistenciais e diversas categorias profissionais, os autores buscaram compreender não apenas se a estratégia funciona, mas principalmente quais características tornam sua implementação mais eficaz.

A auditoria com feedback consiste em medir objetivamente a prática clínica dos profissionais, comparando-a com protocolos, diretrizes ou indicadores previamente estabelecidos, e posteriormente devolver essas informações às equipes com o objetivo de estimular mudanças na assistência.

Na prática hospitalar, trata-se de uma metodologia amplamente utilizada para acompanhar indicadores como adesão à higiene das mãos, conformidade da profilaxia para tromboembolismo venoso, administração segura de medicamentos, adesão às Metas Internacionais de Segurança do Paciente e diversos outros processos críticos relacionados à qualidade assistencial.

Segundo a revisão, essa estratégia produz uma melhora absoluta média de 6,2% na adesão às práticas desejadas, quando comparada ao cuidado habitual, resultado considerado de evidência moderada pelos autores.

Feedback funciona melhor quando não trabalha sozinho

Talvez o principal achado da revisão seja que o audit and feedback não deve ser entendido como uma intervenção isolada. Embora apresente benefícios por si só, os pesquisadores observaram que seus efeitos tornam-se mais expressivos quando a estratégia é integrada a outras iniciativas de melhoria da qualidade. 

Entre as intervenções mais frequentemente associadas ao feedback estavam programas de educação para profissionais, sistemas de lembretes e outras ações voltadas à mudança de comportamento clínico, como, por exemplo, sessões de consultoria. A análise também demonstrou que um maior número de intervenções complementares esteve associado a efeitos mais robustos sobre a prática profissional.

Esse achado reforça um conceito amplamente discutido na segurança do paciente: melhorar processos assistenciais exige abordagens multifacetadas, capazes de combinar produção de conhecimento, monitoramento de indicadores, desenvolvimento de competências e acompanhamento contínuo das equipes.

Assim, além de demonstrar a efetividade da estratégia, a revisão identificou quais características estão associadas aos melhores resultados. O feedback apresentou maior impacto quando:

  • avaliava o desempenho individual do profissional, e não apenas indicadores institucionais;
  • comparava os resultados com profissionais de alto desempenho ou benchmarks;
  • era conduzido por um líder local ou colega com quem existia relação profissional;
  • utilizava múltiplos formatos, como devolutivas presenciais associadas a relatórios escritos;
  • incluía facilitação para apoiar o engajamento dos profissionais;
  • terminava com um plano de ação específico para melhoria.


Curiosamente, os autores observaram que simplesmente repetir o feedback ao longo do tempo não garantiu melhores resultados. Mais importante do que a frequência foi a qualidade da devolutiva e sua capacidade de direcionar mudanças concretas na prática assistencial.

Segurança do paciente depende de cultura organizacional

Embora a revisão da Cochrane concentre sua análise na estrutura e nas características do audit and feedback, ela não aprofunda um aspecto considerado essencial por outros autores: o ambiente organizacional em que esse feedback é oferecido.

Nesse contexto, podemos relembrar um artigo de 2013, intitulado Just Culture: A Foundation for Balanced Accountability and Patient Safety, que discute a importância da cultura justa como fundamento para qualquer estratégia de melhoria da qualidade.

Segundo os autores desse estudo, uma resposta organizacional baseada na identificação de culpados tende a comprometer justamente aquilo que o audit and feedback pretende fortalecer: o aprendizado institucional.

O artigo afirma que, historicamente, muitas organizações reagiram aos erros procurando identificar o profissional responsável e aplicando punições individuais. Entretanto, essa abordagem não elimina as causas dos incidentes, pois os profissionais atuam dentro de sistemas organizacionais que influenciam diretamente seu desempenho. Punir indivíduos sem modificar os processos apenas perpetua os problemas existentes.

Entretanto, é comum que, principalmente nos casos que ganham grande repercussão na mídia, a busca por um culpado ocupe o centro das discussões. Foi o que se observou recentemente em episódios de falhas assistenciais que resultaram em danos graves no Brasil, como o caso da paciente que, em junho deste ano, foi submetida, por engano, a uma cirurgia destinada a outra pessoa.

Os autores do estudo, no entanto, defendem que uma cultura justa exige uma mudança de perspectiva: o foco deixa de ser exclusivamente o erro cometido e passa a concentrar-se no desenho dos processos, na gestão do sistema e nos fatores que influenciam as decisões e os comportamentos das equipes. Nessa abordagem, profissionais não devem ser responsabilizados por falhas produzidas por sistemas que estão fora de seu controle, ao mesmo tempo em que permanece a responsabilização para condutas deliberadamente inseguras.

Sob essa perspectiva, o audit and feedback deixa de ser interpretado como um mecanismo de fiscalização e passa a funcionar como uma ferramenta de aprendizagem organizacional, favorecendo a identificação de oportunidades de melhoria sem gerar medo ou ocultação de incidentes.

Referências:

(1) Audit and feedback: eects on professional practice (Review)

(2) Just Culture: A Foundation for Balanced Accountability and Patient Safety

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