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Estratégia que reduziu em 34% as quedas com lesão reforça importância da participação do paciente na prevenção

Estratégia que reduziu em 34% as quedas com lesão reforça importância da participação do paciente na prevenção
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Pesquisa americana com mais de 37 mil pacientes demonstrou resultados positivos de um programa de prevenção de quedas; estudo brasileiro publicado em 2024 apresenta caminhos para sua implementação e avaliação nos hospitais do país

Envolver pacientes e familiares na prevenção de quedas pode melhorar a segurança hospitalar. Um estudo realizado nos Estados Unidos, com 37.231 pacientes internados em 14 unidades de três centros médicos, identificou uma redução de 15% nas quedas e de 34% nas quedas com lesão após a implementação de uma estratégia centrada na participação ativa do paciente.

Os resultados foram obtidos com o programa Fall Tailoring Interventions for Patient Safety (Fall TIPS), que transforma a avaliação do risco de queda em um plano individualizado, compartilhado com o paciente e executado pela equipe assistencial.

A adaptação dessa estratégia à realidade dos hospitais brasileiros, entretanto, exige planejamento e mecanismos para avaliar sua aplicação. Essas questões foram abordadas em uma pesquisa nacional publicada em 2024, que desenvolveu modelos e propôs indicadores para orientar a implementação e a avaliação do Fall TIPS no país. Embora tenham metodologias diferentes, os dois estudos se complementam ao abordar a identificação de uma intervenção baseada em evidências e as condições necessárias para incorporá-la à prática assistencial.

Da avaliação do risco à participação do paciente

As quedas estão entre os eventos adversos potencialmente evitáveis no ambiente hospitalar e podem provocar fraturas, traumatismos, prolongamento da internação e até a morte.

Embora as instituições utilizem instrumentos para identificar pacientes com maior risco, a avaliação isolada não garante a prevenção. É necessário transformar os riscos identificados em intervenções específicas e incorporá-las à rotina assistencial.

O Fall TIPS foi desenvolvido com base em três etapas:

  1. Avaliar os fatores de risco de cada paciente;
  2. Elaborar um plano de prevenção individualizado;
  3. Executar esse plano de maneira consistente durante a internação.


O diferencial está no envolvimento de pacientes e familiares, que participam da identificação dos riscos e da compreensão das medidas preventivas.

Na pesquisa americana, conduzida entre 2015 e 2018, a estratégia foi liderada pela enfermagem e utilizou recursos como cartazes plastificados à beira-leito, ferramentas integradas ao prontuário eletrônico e telas digitais para comunicar os planos de prevenção. Após a implementação, a taxa ajustada de quedas diminuiu de 2,92 para 2,49 ocorrências por mil pacientes-dia. Já a taxa de quedas com lesão passou de 0,73 para 0,48 por mil pacientes-dia.

Os resultados foram estatisticamente significativos. Entretanto, por se tratar de um estudo controlado não randomizado, demonstram uma associação entre a intervenção e a redução dos eventos, sem estabelecer uma relação causal definitiva.

Adaptação à realidade brasileira

A aplicação de uma intervenção em diferentes sistemas de saúde exige adaptações. Com essa perspectiva, pesquisadores brasileiros desenvolveram o estudo Fall Tailoring Interventions for Patient Safety Brazil Program: an evaluability study in a teaching hospital, publicado em 2024.

Conduzida em um hospital público de ensino da Região Sul, a pesquisa considerou a organização dos serviços de saúde brasileiros, as diretrizes do Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP) e as características do Sistema Único de Saúde (SUS).

Por meio de análise documental, oficinas com profissionais e validação com especialistas, foram desenvolvidos modelos teórico e lógico para orientar a implementação e a avaliação do programa, organizando objetivos, recursos, atividades, responsabilidades e resultados esperados. Os participantes destacaram a necessidade de fortalecer a cultura de segurança, capacitar profissionais, envolver lideranças e ampliar a participação de pacientes e acompanhantes.

O estudo também estruturou o programa em duas dimensões: gerencial, que contempla planejamento, educação permanente, recursos e monitoramento da adesão; e assistencial, que abrange avaliação de risco, elaboração e execução dos planos individualizados e engajamento dos pacientes. Assim, a proposta reforça que prevenir quedas exige não apenas condutas adequadas à beira-leito, mas também condições organizacionais para sua execução consistente.

Oito indicadores para avaliação

Uma das principais contribuições do estudo brasileiro foi a proposta de oito indicadores para acompanhar a implementação e os resultados do Fall TIPS, permitindo uma avaliação mais ampla do que o simples registro da quantidade de quedas.

Cinco indicadores estão relacionados ao processo gerencial:

  • Adesão ao uso dos cartazes de prevenção;
  • Percentual de profissionais e lideranças capacitados;
  • Taxa de quedas;
  • Taxa de quedas com dano;
  • Satisfação das equipes com o programa.

Os outros três estão ligados diretamente ao cuidado:

  • Percentual de pacientes com avaliação de risco realizada;
  • Percentual de prescrição e implementação de planos preventivos individualizados;
  • Percentual de engajamento de pacientes e acompanhantes.


Os indicadores de processo permitem verificar se as medidas preventivas estão sendo executadas, enquanto os de resultado acompanham os eventos e danos que se pretende evitar. Essa combinação é importante para os Núcleos de Segurança do Paciente e as equipes de gestão da qualidade, visto que uma instituição pode apresentar elevada adesão à avaliação de risco, por exemplo, mas encontrar dificuldades na execução dos planos individualizados ou na participação dos pacientes.

Sem acompanhar essas etapas, fragilidades podem passar despercebidas, dificultando a identificação de oportunidades de melhoria.

Compreensão do paciente

Outro aspecto relevante do Fall TIPS é verificar se o paciente realmente compreende seus riscos e as medidas preventivas. No estudo americano, as auditorias não se limitavam à existência de um cartaz atualizado. Os profissionais também verificavam se pacientes e familiares conseguiam explicar os fatores de risco identificados e o plano de prevenção estabelecido.

A abordagem reforça que disponibilizar uma orientação não significa necessariamente que ela foi compreendida. Para participar efetivamente da própria segurança, o paciente precisa receber informações acessíveis e individualizadas, discutidas com a equipe assistencial.

Ao incluir o engajamento de pacientes e acompanhantes entre os indicadores propostos, a pesquisa brasileira também reconhece essa participação como um aspecto que deve ser monitorado sistematicamente.

Da evidência científica à melhoria do cuidado

Os dois estudos mostram etapas complementares da transformação do conhecimento científico em práticas assistenciais. Enquanto a pesquisa americana apresenta evidências de que o envolvimento do paciente, associado a planos individualizados, pode contribuir para reduzir quedas e lesões, o estudo brasileiro organiza elementos necessários para implementar e avaliar essa estratégia no contexto nacional.

É importante destacar que a pesquisa brasileira não avaliou a redução de quedas após a implementação do Fall TIPS no país. Sua contribuição foi desenvolver e validar modelos de planejamento e propor indicadores para futuras avaliações. Portanto, os percentuais de redução observados nos Estados Unidos não podem ser automaticamente atribuídos aos hospitais brasileiros.

Juntas, as pesquisas apontam um caminho para melhorar a segurança do paciente: selecionar intervenções sustentadas por evidências científicas, adaptá-las à realidade dos serviços e acompanhar sua execução e seus resultados.

Referências:

1. Evaluation of a Patient-Centered Fall-Prevention Tool Kit to Reduce Falls and Injuries: A Nonrandomized Controlled Trial.

2. Fall Tailoring Interventions for Patient Safety Brazil Program: an evaluability study in a teaching hospital.

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